{"id":3370,"date":"2019-08-28T12:53:00","date_gmt":"2019-08-28T11:53:00","guid":{"rendered":"https:\/\/pauloadriano.pt\/?p=3370"},"modified":"2026-05-21T12:59:16","modified_gmt":"2026-05-21T11:59:16","slug":"melhor-era-estragar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/2019\/08\/28\/melhor-era-estragar\/","title":{"rendered":"Melhor, era estragar"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aparece um vulto l\u00e1 ao fundo daquele corredor largo e comprido. A luz que atravessa o \u00e1trio, apenas deixa ver a silhueta de um homem. Percebe-se j\u00e1 idoso pela curvatura do tronco que presta rever\u00eancia \u00e0s paredes que o circundam. O seu andar \u00e9 miudinho e arrastado da vida que lhe ensinou que agora n\u00e3o h\u00e1 pressa para chegar a lado nenhum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acabamos por nos cruzar. \u00c0 dist\u00e2ncia, eu j\u00e1 sabia quem ele era pelos contornos que a luz lhe lhe desenhava, onde se impunha o bon\u00e9 que fazia quest\u00e3o de proteger dos raios de sol mais agrestes o couro manchado pelos anos. Estendo-lhe a m\u00e3o no habitual cumprimento que ele fazia quest\u00e3o de ser peculiar. N\u00e3o d\u00e1 para explicar: pretendendo ser um aperto de m\u00e3o, o jeito era mais de quem rodava a bola da ma\u00e7aneta de uma qualquer porta. Talvez quisesse entrar\u2026 eu sei l\u00e1. O que sei \u00e9 que j\u00e1 me tinha habituado \u00e0quele passou-bem, uma esp\u00e9cie de assinatura a personalizar um gesto t\u00e3o banal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Quem \u00e9s tu? \u2014 perguntava. Tal como o manuseado cumprimento, tamb\u00e9m n\u00e3o estranhei a costumeira pergunta. Afinal, para al\u00e9m de todas as dificuldades de locomo\u00e7\u00e3o, os anos tamb\u00e9m se encarregaram de lhe levar grande peda\u00e7o da vis\u00e3o que agora era turva e apenas lhe permitia enxergar as sombras por onde andava. Disse-lhe o meu nome e perguntei-lhe como estava. A resposta, essa j\u00e1 a adivinhava:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Melhor, era estragar. \u2014 Desconcertava-me e n\u00e3o era pouco. Aquilo que muitos poderiam entender como resigna\u00e7\u00e3o ou desist\u00eancia, era uma express\u00e3o de f\u00e9, da for\u00e7a que a f\u00e9 tem para ultrapassar as intemp\u00e9ries humanas. N\u00e3o era sarcasmo ou ironia, mas uma manifesta\u00e7\u00e3o do riso de Deus, do qual dizia Ant\u00f3nio Al\u00e7ada Baptista que \u201ca letra de Deus nem sempre \u00e9 decifr\u00e1vel e ningu\u00e9m conhece a l\u00edngua em que escreveu a alma humana\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O padre Ant\u00f3nio Gameiro era, para muitos, essa pequena resposta. Na sua simplicidade e humor, trazia um cora\u00e7\u00e3o enorme, daqueles de quem dizemos que todos os padres deviam ser assim. E por isso deixa saudades da sua presen\u00e7a fugaz, que passava por n\u00f3s com a mesma rapidez com que nos indelevelmente marcava.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.leiria-fatima.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Padre-Anto%CC%81nio-Gameiro-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-19747\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Post scriptum. Percorro a cronologia da rede social da Diocese e o padre Gameiro mostra-me estes n\u00fameros: 23.882 pessoas alcan\u00e7adas e 5459 intera\u00e7\u00f5es. S\u00e3o d\u00edgitos frios que, por nunca terem sido alcan\u00e7ados naquele espa\u00e7o virtual, podem ser lidos \u00e0 luz da vida daquele sacerdote: feita a criar rela\u00e7\u00f5es.<a href=\"https:\/\/www.leiria-fatima.pt\/author\/pauloadriano\/\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aparece um vulto l\u00e1 ao fundo daquele corredor largo e comprido. A luz que atravessa o \u00e1trio, apenas deixa ver a silhueta de um homem. Percebe-se j\u00e1 idoso pela curvatura do tronco que presta rever\u00eancia \u00e0s paredes que o circundam. 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