{"id":3406,"date":"2026-04-24T16:33:00","date_gmt":"2026-04-24T15:33:00","guid":{"rendered":"https:\/\/pauloadriano.pt\/?p=3406"},"modified":"2026-05-21T16:34:10","modified_gmt":"2026-05-21T15:34:10","slug":"ordinary-people","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/2026\/04\/24\/ordinary-people\/","title":{"rendered":"ordinary people"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquela a que chamam cidade eterna, os \u00faltimos momentos passo-os ali mesmo, em frente \u00e0 Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro. Na mesa do caf\u00e9, um &#8216;espresso lungo&#8217; e uma &#8216;acqua gasata&#8217; acompanham-me em mais uma tentativa de diatribe liter\u00e1ria, em jeito de mem\u00f3ria e agradecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dos souvenirs para a fam\u00edlia tratei na tarde do dia anterior: tr\u00eas porta-chaves com as iniciais dos meus tr\u00eas apelidos, para levar, como recorda\u00e7\u00e3o, aos meus mais que tudo \u2014 mulher e filhos. Sim, coincid\u00eancias da vida: as letras com que come\u00e7am os nomes deles s\u00e3o as mesmas com que come\u00e7am os meus apelidos. J\u00e1 ouvi chamar-lhes deusid\u00eancias. E faz sentido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os cinco dias mais recentes foram um verdadeiro turbilh\u00e3o de confer\u00eancias com gente que fez da pena a sua ferramenta e da palavra a sua mat\u00e9ria-prima. A maior parte, jornalistas da capital; alguns deles, companhia fugaz e conhecida do ecr\u00e3 dessa caixa que mudou o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ontem, quarta-feira, ao almo\u00e7o, tivemos mais uma das habituais prelec\u00e7\u00f5es. Aqui, a degusta\u00e7\u00e3o das pastas romanas n\u00e3o impede que se saboreiem tamb\u00e9m o conhecimento e a experi\u00eancia dos convidados da organiza\u00e7\u00e3o. Dessa conversa \u00e0 mesa retirei o nome que dou agora a esta prosa. Um filme que fala de rela\u00e7\u00f5es, dizia o insigne orador.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/pauloadriano.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/ordinary-people-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3407\" srcset=\"https:\/\/pauloadriano.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/ordinary-people-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/pauloadriano.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/ordinary-people-300x169.jpg 300w, https:\/\/pauloadriano.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/ordinary-people-768x432.jpg 768w, https:\/\/pauloadriano.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/ordinary-people-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/pauloadriano.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/ordinary-people.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 isso mesmo. Mais do que aprender, alargar conhecimento ou assimilar experi\u00eancias, estes dias foram dias para criar rela\u00e7\u00f5es. \u00c9 isso que mais me trouxe aqui. \u00c9 isso que mais levo daqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos preparativos da viagem, confesso, a vontade n\u00e3o era muita. Fugir \u00e0 rotina, deixar o conforto dos h\u00e1bitos, \u00e9 para mim um tormento que s\u00f3 se mitiga pelo gosto de viajar at\u00e9 uma cidade que come\u00e7a tamb\u00e9m a ser minha e na qual j\u00e1 se vislumbram, em mim, discretos gestos de anfitri\u00e3o. Faz este ano dez anos que a calcorreei pela primeira vez. J\u00e1 passou uma d\u00e9cada desde que me deixei maravilhar pelas igrejas, pelas pra\u00e7as, pelas ruas, pelos edif\u00edcios que, ami\u00fade, me v\u00e3o contando hist\u00f3rias e vidas de s\u00e9culos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi tamb\u00e9m aqui que aprendi a aceitar o \u00f3bvio: n\u00e3o sou muito de falar; sou mais de escrever. Prefiro pensar e pesar palavras, \u00e0s vezes brincar com elas, do que debit\u00e1-las em discurso oral. Em vez de contar hist\u00f3rias de viva voz, a falta de jeito para a orat\u00f3ria compensa-se, em mim, com a dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 escrita \u2014 \u00f3 presun\u00e7\u00e3o a minha \u2014, porque \u00e9 ela que me ajuda a preserv\u00e1-las na mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tenho para mim que talvez essa seja uma defini\u00e7\u00e3o poss\u00edvel de gente vulgar: sou vulgar, de rela\u00e7\u00f5es simples, mas com o gosto previs\u00edvel por ouvir uma boa hist\u00f3ria. Talvez por isso os meus momentos preferidos tenham sido precisamente esses em que a vida se fez conversa partilhada, como naquela noite, na pra\u00e7a em forma de nave, em que, para l\u00e1 da &#8216;birra&#8217; que me deixou a garganta pouco recomend\u00e1vel, bebi as hist\u00f3rias de gente amiga que parecia ter corrido mundo s\u00f3 para estar ali, a contar-me o que viu e viveu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este foi o filme que vi, e vivi, nestes dias: o de gente comum, no sentido mais bonito e mais sincero de quem constr\u00f3i rela\u00e7\u00f5es que, ainda que breves, marcam indelevelmente uma vida. Tudo pode terminar hoje, e a vida de cada um de n\u00f3s levar-nos para onde somos esperados, longe uns dos outros. Mas j\u00e1 \u00e9 tarde para fugir \u00e0 marca que ficou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aos que a provocaram, sobretudo \u00e0queles que, durante meses, programaram o inesquec\u00edvel: &#8216;grazie mille&#8217;. N\u00e3o escrevo nomes, mas \u00e9 por eles que me vem \u00e0 mem\u00f3ria My Favourite Things, uma das can\u00e7\u00f5es da Maria em The Sound Of Music: h\u00e1 pessoas, encontros e gestos que passam a morar dentro de n\u00f3s como algumas das nossas coisas preferidas. E, quando assim \u00e9, a gratid\u00e3o torna-se a forma mais justa de recordar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Naquela a que chamam cidade eterna, os \u00faltimos momentos passo-os ali mesmo, em frente \u00e0 Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro. Na mesa do caf\u00e9, um &#8216;espresso lungo&#8217; e uma &#8216;acqua gasata&#8217; acompanham-me em mais uma tentativa de diatribe liter\u00e1ria, em jeito de mem\u00f3ria e agradecimento. 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