{"id":3424,"date":"2026-02-20T16:41:00","date_gmt":"2026-02-20T16:41:00","guid":{"rendered":"https:\/\/pauloadriano.pt\/?p=3424"},"modified":"2026-05-21T16:42:20","modified_gmt":"2026-05-21T15:42:20","slug":"o-que-os-incendios-deixaram-a-kristin-levou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/2026\/02\/20\/o-que-os-incendios-deixaram-a-kristin-levou\/","title":{"rendered":"O que os inc\u00eandios deixaram, a Kristin levou"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 perdas que t\u00eam nome pr\u00f3prio. Esta tinha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Eucalipto do Tremelgo estava no Pinhal do Rei, na Marinha Grande, com os seus 53 metros de altura e os seus mais de 165 anos de exist\u00eancia. Cento e sessenta e cinco anos. Enquanto Portugal atravessava guerras, regimes e revolu\u00e7\u00f5es, aquela \u00e1rvore crescia. Classificada de interesse p\u00fablico desde 1997 \u2014 como se a lei precisasse de confirmar o que qualquer pessoa que uma vez lhe levantou os olhos j\u00e1 sabia \u2014, o Eucalipto do Tremelgo era uma das \u00e1rvores mais emblem\u00e1ticas e volumosas de toda a Mata Nacional. Um gigante quase solit\u00e1rio num espa\u00e7o que os inc\u00eandios de 2017 tinham deixado em ferida aberta, cercado de aus\u00eancias, de tocos e de cinza de mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"771\" src=\"https:\/\/pauloadriano.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/eucalipto-1024x771.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3425\" srcset=\"https:\/\/pauloadriano.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/eucalipto-1024x771.jpg 1024w, https:\/\/pauloadriano.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/eucalipto-300x226.jpg 300w, https:\/\/pauloadriano.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/eucalipto-768x578.jpg 768w, https:\/\/pauloadriano.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/eucalipto-1536x1157.jpg 1536w, https:\/\/pauloadriano.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/eucalipto.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E foi isso que tornava a sua sobreviv\u00eancia ao grande inc\u00eandio de 2017 numa esp\u00e9cie de milagre. Enquanto tudo \u00e0 volta ardia, ele ficou de p\u00e9. Ficou de p\u00e9 como ficam os velhos que enterraram os filhos \u2014 com uma dignidade que d\u00f3i de ver. Tornou-se, nesse espa\u00e7o devastado, n\u00e3o apenas uma \u00e1rvore mas um s\u00edmbolo: o de que \u00e9 poss\u00edvel resistir, de que a vida insiste, de que nem tudo se perde de uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em janeiro de 2026, caiu. &#8220;Jaz morto, e arrefece.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o foi o fogo desta vez. Foi o vento. Foi a tempestade Kristin, com a sua indiferen\u00e7a de fen\u00f3meno clim\u00e1tico, sem rancor e sem consci\u00eancia, que derrubou o que as chamas n\u00e3o tinham conseguido. E com ele tombou qualquer coisa que n\u00e3o era apenas madeira \u2014 era uma testemunha. Era a prova viva de que ali, naquele pinhal que D. Dinis mandou plantar e que atravessou s\u00e9culos como monumento vivo da rela\u00e7\u00e3o entre os portugueses e a terra, havia continuidade. Havia fio. Havia ainda qualquer coisa que nos ligava ao passado pelo presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse fio partiu-se em janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o foi a \u00fanica perda. Ali ao lado, h\u00e1, havia, o parque de merendas na Portela, que guardo dentro de mim como se guarda uma fotografia antiga: com aquela mistura de orgulho e de saudade que s\u00f3 sentimos pelas coisas que am\u00e1mos sem saber que as est\u00e1vamos a amar, s\u00f3 de passar ao lado quando vimos das praias para casa. Era uma das poucas manchas compactas e resistentes de pinheiro manso que ainda sobreviviam naquela faixa de litoral \u2014 verde escuro, cheiroso, denso, com aquele sil\u00eancio de resina e de agulhas que abafam o som dos passos. Um lugar que parecia imortal porque, de certa forma, precis\u00e1vamos que o fosse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m n\u00e3o resistiu. &#8220;Jaz morto, e arrefece.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando os inc\u00eandios varreram o Pinhal de Leiria, ficou uma ferida enorme, hist\u00f3rica. Agarr\u00e1mo-nos ao pouco que sobrou como quem agarra os cacos de uma ch\u00e1vena partida, ainda esperando que sirvam para alguma coisa. O Eucalipto do Tremelgo era um desses cacos \u2014 o maior, o mais alto, o mais antigo. O parque da Portela era outro. A Kristin n\u00e3o quis saber. Derrubou e tombou e foi embora, que as tempestades n\u00e3o ficam a ver o estrago que fazem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E eu, que apenas l\u00e1 ia de passagem, n\u00e3o sei bem o que sinto. Ou sei, e \u00e9 isso que me custa: sinto uma tristeza desproporcionada, ou, ent\u00e3o, exactamente proporcional ao que se perdeu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os telhados que a Kristin arrancou j\u00e1 est\u00e3o a ser repostos. Vemos as gentes a trabalhar, a subir e descer escadas, \u00e0s vezzes a arriscar a vida pela reposi\u00e7\u00e3o do tecto em que sempre se abrigaram. \u00c9 assim com as casas: partem, reparam-se, e aguardam a pr\u00f3xima trag\u00e9dia. A mem\u00f3ria da tempestade vai apagando-se com o tempo, a tinta nova ajuda a esquecer. As pessoas t\u00eam essa capacidade admir\u00e1vel de reconstruir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a floresta n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma \u00e1rvore com 165 anos levou 165 anos a crescer. Uma mancha de pinheiro manso, com a sua teia de ra\u00edzes, os seus l\u00edquenes e os seus p\u00e1ssaros e os seus fungos \u2014 um ecossistema que se construiu em d\u00e9cadas de paci\u00eancia silenciosa. N\u00e3o se rep\u00f5e numa obra p\u00fablica. N\u00e3o se rep\u00f5e num mandato aut\u00e1rquico. N\u00e3o se rep\u00f5e sequer numa gera\u00e7\u00e3o. Planta-se, sim. Mas quem vai ver crescer ser\u00e3o os nossos filhos, e talvez os filhos dos nossos filhos, se a sorte \u2014 e o clima, e as pol\u00edticas, e a aten\u00e7\u00e3o colectiva \u2014 estiver do nosso lado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 esta assimetria que me parte. A facilidade com que se destr\u00f3i e a lentid\u00e3o com que se reconstr\u00f3i. O tempo que a natureza precisa e o tempo que n\u00e3o temos. \u00c0s vezes vem-me uma vontade de chorar que n\u00e3o consigo explicar muito bem a quem n\u00e3o conhece aquelas \u00e1rvores, aquele cheiro, aquele gigante de 53 metros que sobreviveu ao fogo mas n\u00e3o sobreviveu ao vento. Parece exagero. N\u00e3o \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Choro, quando choro, pelo que n\u00e3o voltar\u00e1 a ser igual enquanto tiver estes olhos que a terra h\u00e1-de comer. E choro tamb\u00e9m por uma esp\u00e9cie de culpa colectiva que n\u00e3o sei bem como carregar \u2014 a de pertencer a uma civiliza\u00e7\u00e3o que percebeu tarde demais que o que estava a queimar, e a tombar, n\u00e3o era apenas madeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas existe, nisto tudo, qualquer coisa que me recusa o desespero definitivo. A terra que ficou n\u00e3o \u00e9 terra morta. Est\u00e1 ferida, sim \u2014 mas ferida n\u00e3o \u00e9 o mesmo que vazia. E aqui, como em qualquer lugar onde as pessoas ainda se lembram do nome das \u00e1rvores que perderam, h\u00e1 quem esteja a plantar. Devagar, com as m\u00e3os na terra, sem c\u00e2maras, sem discursos. H\u00e1 quem guarde fotografias do Eucalipto do Tremelgo como se guardam retratos de fam\u00edlia. H\u00e1 autarquias, algumas, a levar o repovoamento florestal a s\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 suficiente. Mas \u00e9 um come\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E talvez seja isso o que nos pedem estas perdas: n\u00e3o o luto paralisante, mas o luto que age. A tristeza que planta. A saudade que n\u00e3o se deixa abater na nostalgia mas que se converte em compromisso: o de n\u00e3o deixar que a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o herde apenas fotografias de como era o pinhal, de como era aquele eucalipto imenso e quieto e teimosamente vivo no meio de tanta destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para j\u00e1 come\u00e7o por n\u00e3o esquecer. Por dizer o nome dos lugares: Eucalipto do Tremelgo, parque de merendas da Portela, Pinhal do Rei, Marinha Grande. Por contar que havia ali \u00e1rvores que eram mais velhas do que as perguntas que hoje fazemos sobre o clima. Por insistir que isto n\u00e3o \u00e9 um dano colateral de uma tempestade com nome de mulher. \u00c9 uma perda com endere\u00e7o, com cheiro, com altura \u2014 53 metros de altura \u2014, com hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E as perdas com endere\u00e7o merecem ser choradas. E depois, talvez, revertidas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 perdas que t\u00eam nome pr\u00f3prio. Esta tinha. O Eucalipto do Tremelgo estava no Pinhal do Rei, na Marinha Grande, com os seus 53 metros de altura e os seus mais de 165 anos de exist\u00eancia. Cento e sessenta e cinco anos. Enquanto Portugal atravessava guerras, regimes e revolu\u00e7\u00f5es, aquela \u00e1rvore crescia. 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