{"id":3458,"date":"2026-06-12T10:36:41","date_gmt":"2026-06-12T09:36:41","guid":{"rendered":"https:\/\/pauloadriano.pt\/?p=3458"},"modified":"2026-06-03T10:38:14","modified_gmt":"2026-06-03T09:38:14","slug":"o-ultimo-dos-bons-gigantes-em-memoria-do-padre-augusto-pascoal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/2026\/06\/12\/o-ultimo-dos-bons-gigantes-em-memoria-do-padre-augusto-pascoal\/","title":{"rendered":"O \u00faltimo dos bons gigantes (Em mem\u00f3ria do padre Augusto Pascoal)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A not\u00edcia da morte do padre Augusto Pascoal obrigou-me a viajar muitos anos para tr\u00e1s, at\u00e9 aos primeiros dias da minha entrada no Semin\u00e1rio Diocesano de Leiria, quando eu era apenas um rapaz de onze anos e menos de metro e meio, e olhava para o mundo dos adultos com aquela mistura de curiosidade, admira\u00e7\u00e3o e receio que caracteriza a inf\u00e2ncia. Nesse universo novo, feito de corredores longos, hor\u00e1rios rigorosos, professores exigentes e uma comunidade inteiramente desconhecida, o doutor Pascoal \u2013 que era como o trat\u00e1vamos \u2013 destacava-se naturalmente entre todas as figuras que compunham o cen\u00e1rio daqueles primeiros tempos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"931\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/pauloadriano.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/padre-Agusto-Pascoal.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3459\" srcset=\"https:\/\/pauloadriano.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/padre-Agusto-Pascoal.jpg 931w, https:\/\/pauloadriano.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/padre-Agusto-Pascoal-273x300.jpg 273w, https:\/\/pauloadriano.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/padre-Agusto-Pascoal-768x845.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 931px) 100vw, 931px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O gigante que metia respeito<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tinha ent\u00e3o quarenta e oito anos e, aos olhos de um rapaz da minha idade, parecia um gigante. A altura impressionava, mas n\u00e3o era apenas isso. Havia toda uma composi\u00e7\u00e3o visual que contribu\u00eda para essa percep\u00e7\u00e3o: a batina preta, que lhe conferia solenidade, os \u00f3culos de massa grossa, incapazes de esconder as sobrancelhas densas que lhe acentuavam a express\u00e3o, e sobretudo uma discri\u00e7\u00e3o quase austera, feita de poucas palavras e de uma presen\u00e7a que n\u00e3o precisava de se impor, porque o respeito surgia espontaneamente. Hoje sorrio ao recordar a imagem que dele constru\u00edmos, mas a verdade \u00e9 que aquele homem silencioso conseguia inspirar em n\u00f3s um temor reverencial, daqueles que fazem aguardar de p\u00e9 e de costas direitas quando algu\u00e9m entra numa sala.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As suas aulas de Portugu\u00eas possu\u00edam uma liturgia pr\u00f3pria que ainda hoje recordo. Come\u00e7avam com a turma mergulhada num sil\u00eancio quase penitencial, porque todos sab\u00edamos que, a qualquer momento, algu\u00e9m seria chamado a responder sobre a mat\u00e9ria leccionada. Provavelmente n\u00e3o passava de um m\u00e9todo pedag\u00f3gico perfeitamente normal, mas a solenidade com que tudo acontecia, aliada \u00e0 voz grave do professor, fazia-nos sentir como se estiv\u00e9ssemos perante um exame decisivo. Para os nossos padr\u00f5es adolescentes, aquilo era um acontecimento de enorme relev\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que os anos me ensinaram foi que a primeira impress\u00e3o que guardamos das pessoas raramente coincide com a sua verdadeira dimens\u00e3o. \u00c0 medida que fui crescendo, a figura austera do educador come\u00e7ou a revelar outras camadas, algumas inesperadas, outras profundamente marcantes. Curiosamente, uma das primeiras portas para essa descoberta foi algo t\u00e3o simples quanto a sua caligrafia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda hoje me recordo do espanto que me causavam os seus manuscritos. Fossem apontamentos das aulas, adapta\u00e7\u00f5es de pe\u00e7as de teatro ou qualquer outro texto produzido por ele, havia naquela escrita uma eleg\u00e2ncia art\u00edstica que me parecia contradizer a imagem de severidade que lhe atribu\u00edamos. Cada letra parecia ser desenhada com um cuidado meticuloso, cada palavra possu\u00eda uma harmonia pr\u00f3pria, e eu contemplava aqueles textos, fascinado pela beleza gr\u00e1fica que deles emanava. Parecia-me extraordin\u00e1rio que o mesmo homem que nos interrogava com voz grave sobre an\u00e1lise sint\u00e1ctica fosse capaz de produzir uma escrita t\u00e3o delicada e bela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A verdade \u00e9 que aquela admira\u00e7\u00e3o acabou por deixar marcas inesperadas. Durante muito tempo procurei imitar a sua letra e, ainda hoje, h\u00e1 na minha pr\u00f3pria assinatura vest\u00edgios dessa influ\u00eancia. Salvaguardadas todas as dist\u00e2ncias entre o modelo e a c\u00f3pia, existe nela qualquer coisa que nasceu da contempla\u00e7\u00e3o dos manuscritos do padre Pascoal. Nunca lhe confessei esta admira\u00e7\u00e3o secreta, mas gosto de pensar que ele a tenha intu\u00eddo. Os bons educadores possuem frequentemente essa capacidade rara de perceber aquilo que os seus alunos nunca chegam a verbalizar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quando a austeridade deu lugar ao homem<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na realidade, quanto mais os anos passam, mais me conven\u00e7o de que a austeridade que v\u00edamos era, em grande medida, consequ\u00eancia da responsabilidade que carregava. Educar dezenas de adolescentes n\u00e3o \u00e9 tarefa simples em nenhuma \u00e9poca da hist\u00f3ria e, olhando retrospectivamente, imagino o peso que representava acompanhar o crescimento humano, intelectual e espiritual de tantos jovens. Talvez fosse essa responsabilidade que lhe emprestava aquela apar\u00eancia severa; talvez fosse o sentido do dever que lhe exigia uma disciplina permanente. O que sei \u00e9 que, apesar de toda a exig\u00eancia que lhe reconhec\u00edamos, n\u00e3o consigo recordar uma \u00fanica palavra injusta, uma \u00fanica humilha\u00e7\u00e3o gratuita ou um \u00fanico gesto que n\u00e3o estivesse ao servi\u00e7o da miss\u00e3o educativa que abra\u00e7ara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta percep\u00e7\u00e3o tornou-se ainda mais clara quando deixou a equipa formadora do semin\u00e1rio para se dedicar \u00e0 par\u00f3quia dos Pousos. Tenho a impress\u00e3o de que foi ent\u00e3o que vi surgir uma vers\u00e3o mais leve do homem que conhecera durante a adolesc\u00eancia. O rosto parecia mais descontra\u00eddo, os sorrisos surgiam com maior frequ\u00eancia, os \u00f3culos tornaram-se menos pesados e at\u00e9 as lend\u00e1rias sobrancelhas pareciam ter sido aparadas para aliviar a sua capacidade intimidat\u00f3ria. N\u00e3o sei se foi ele que mudou ou se fui eu que finalmente aprendi a v\u00ea-lo para al\u00e9m da fun\u00e7\u00e3o que desempenhava. Talvez tenham acontecido ambas as coisas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as muitas recorda\u00e7\u00f5es que guardo desses anos, existe uma que me \u00e9 particularmente querida: a liga\u00e7\u00e3o do padre Pascoal ao teatro. Ainda hoje me parece curioso que as artes dram\u00e1ticas estivessem confiadas precisamente \u00e0quele homem que n\u00f3s associ\u00e1vamos ao rigor acad\u00e9mico e \u00e0 discri\u00e7\u00e3o pessoal. Era ele quem adaptava textos, preparava gui\u00f5es, organizava ensaios e conduzia representa\u00e7\u00f5es que permaneceram na mem\u00f3ria de sucessivas gera\u00e7\u00f5es de seminaristas. Lembro-me particularmente de \u201cAs \u00c1rvores Morrem de P\u00e9\u201d, uma produ\u00e7\u00e3o memor\u00e1vel que, como tantas outras, passou pelas suas m\u00e3os antes de chegar ao palco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naturalmente, num semin\u00e1rio exclusivamente masculino, a adapta\u00e7\u00e3o de certas obras obrigava a algumas solu\u00e7\u00f5es criativas. Por isso mesmo, gra\u00e7as \u00e0 fidelidade ao texto original de Gil Vicente, coube-me um dia interpretar a c\u00e9lebre Br\u00edzida Vaz no \u201cAuto da Barca do Inferno\u201d, epis\u00f3dio que provavelmente n\u00e3o figura entre os momentos mais gloriosos da hist\u00f3ria do teatro nacional, mas que continua a ocupar um lugar de destaque entre as minhas recorda\u00e7\u00f5es daqueles tempos. O que nunca esquecerei, por\u00e9m, \u00e9 que os gui\u00f5es que utiliz\u00e1vamos eram frequentemente escritos \u00e0 m\u00e3o pelo pr\u00f3prio padre Pascoal e voltavam a exibir aquela caligrafia que tanto admirava.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um s\u00e1bio que continua a ensinar<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, acima de tudo, aquilo que mais cresceu dentro de mim foi a admira\u00e7\u00e3o pelo seu saber. Houve um tempo em que o via apenas como professor; depois comecei a v\u00ea-lo como intelectual; mais tarde descobri nele algo ainda mais raro: um homem verdadeiramente s\u00e1bio. A diferen\u00e7a \u00e9 importante. O conhecimento pode adquirir-se; a sabedoria, pelo contr\u00e1rio, resulta de uma vida inteira dedicada \u00e0 procura da verdade, ao estudo paciente e \u00e0 reflex\u00e3o profunda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era um homem reservado, discreto e at\u00e9 t\u00edmido, mas possu\u00eda uma cultura vast\u00edssima que nunca exibia como ornamento. Pertencia \u00e0quela esp\u00e9cie cada vez mais rara de intelectuais que n\u00e3o sentem necessidade de demonstrar constantemente aquilo que sabem. Bastava ouvi-lo para perceber a profundidade das suas leituras, a solidez do seu pensamento e a amplitude dos seus horizontes. A imagem de s\u00e1bio assenta-lhe perfeitamente e \u00e9 essa imagem que guardo para mim. \u00c0s vezes penso, com um sorriso, que bastaria deix\u00e1-lo crescer o cabelo, entregar-lhe um cajado e transport\u00e1-lo para a Terra M\u00e9dia para que passasse facilmente por Gandalf. N\u00e3o o digo apenas pela semelhan\u00e7a f\u00edsica que a imagina\u00e7\u00e3o permite construir, mas sobretudo porque ambos partilhavam aquela autoridade tranquila que nasce do conhecimento e da experi\u00eancia. N\u00e3o admira que um dos momentos que mais me marcou tenha acontecido j\u00e1 muito mais tarde, quando finalmente concluiu a sua tese de doutoramento. Ao pedir-me que desenhasse a capa daquele volumoso trabalho acad\u00e9mico, ofereceu-me muito mais do que uma simples colabora\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica. Naquele gesto estava o reconhecimento de uma liga\u00e7\u00e3o constru\u00edda ao longo dos anos. Eu continuava a v\u00ea-lo como um dos mestres da minha juventude; ele, apesar das centenas de alunos que tinham passado pela sua vida, continuava a lembrar-se daquele antigo seminarista. Foi um gesto discreto, \u00e0 sua maneira, mas profundamente significativo para mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, ao recordar o padre Pascoal, n\u00e3o penso apenas no professor, no formador, no dramaturgo ou no intelectual. Penso sobretudo no homem que ajudou silenciosamente a moldar a vida de tantos outros homens. Penso naquele educador cuja influ\u00eancia continua presente em pequenos detalhes que atravessaram d\u00e9cadas, desde uma assinatura inspirada na sua at\u00e9 uma forma de olhar para o conhecimento como algo que merece ser procurado com humildade e perseveran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 pessoas que passam pela nossa vida e deixam recorda\u00e7\u00f5es. Outras deixam marcas. O padre Pascoal pertence a esta segunda categoria. E essa \u00e9 a mais bela defini\u00e7\u00e3o de um educador: algu\u00e9m que continua a ensinar muito depois de ter terminado a \u00faltima aula.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A not\u00edcia da morte do padre Augusto Pascoal obrigou-me a viajar muitos anos para tr\u00e1s, at\u00e9 aos primeiros dias da minha entrada no Semin\u00e1rio Diocesano de Leiria, quando eu era apenas um rapaz de onze anos e menos de metro e meio, e olhava para o mundo dos adultos com aquela mistura de curiosidade, admira\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-3458","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao-leiria-fatima"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3458","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3458"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3458\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3460,"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3458\/revisions\/3460"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3458"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3458"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3458"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}