{"id":3468,"date":"2026-07-06T15:56:15","date_gmt":"2026-07-06T14:56:15","guid":{"rendered":"https:\/\/pauloadriano.pt\/?p=3468"},"modified":"2026-07-06T15:57:33","modified_gmt":"2026-07-06T14:57:33","slug":"tempo-de-abrir-as-portas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/2026\/07\/06\/tempo-de-abrir-as-portas\/","title":{"rendered":"Tempo de abrir as portas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lembro-me de, na minha inf\u00e2ncia, passar por uma igreja e saber, quase instintivamente, que a porta estaria aberta. Pod\u00edamos entrar. \u00c0s vezes para rezar, outras vezes apenas para permanecer alguns minutos em sil\u00eancio, naquele ambiente fresco e sereno que parecia existir fora do ritmo acelerado da vida quotidiana. Ali\u00e1s, entrar numa igreja para fazer uma breve visita ao Sant\u00edssimo Sacramento era um convite permanente que fazia parte da cultura religiosa de muitas comunidades. Hoje, infelizmente, a realidade \u00e9 muito diferente, j\u00e1 que as igrejas permanecem fechadas durante grande parte do dia. \u00c9 uma decis\u00e3o compreens\u00edvel devido aos furtos, vandalismos e assaltos que, ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, t\u00eam atingido n\u00e3o apenas as caixas de esmolas, mas tamb\u00e9m pe\u00e7as e objetos do patrim\u00f3nio art\u00edstico e religioso. Ainda assim, nestes dias de calor extremo que Portugal e boa parte da Europa t\u00eam vivido, dei por mim a pensar novamente nessas portas que outrora permaneciam abertas e a perguntar-me se, perante determinadas circunst\u00e2ncias, n\u00e3o seria profundamente humano e, por isso, tamb\u00e9m profundamente crist\u00e3o, em voltar a abri-las.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante grande parte da hist\u00f3ria do cristianismo ningu\u00e9m estranharia esta pergunta. Pelo contr\u00e1rio. Durante s\u00e9culos, as igrejas foram precisamente isso: lugares para onde se ia quando a vida se tornava demasiado dif\u00edcil para ser enfrentada sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando havia guerras, procurava-se a igreja. Quando havia fome, procurava-se a igreja. Quando surgiam epidemias, inc\u00eandios ou calamidades, procurava-se a igreja. E n\u00e3o apenas porque ali se rezava, mas porque ali se encontrava comunidade, prote\u00e7\u00e3o e, sobretudo, acolhimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Teremos esquecido esta dimens\u00e3o porque, felizmente, deix\u00e1mos de precisar dela tantas vezes por estas raz\u00f5es. Ou talvez porque nos habitu\u00e1mos a pensar nas igrejas sobretudo como lugares destinados ao culto, esquecendo que, ao longo da hist\u00f3ria, elas foram tamb\u00e9m o cora\u00e7\u00e3o social das comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Insisto: h\u00e1 qualquer coisa de profundamente humano e crist\u00e3o na ideia de uma igreja que abre as suas portas num dia de calor extremo para oferecer sombra, sil\u00eancio e um copo de \u00e1gua fresca. N\u00e3o se trata de transformar templos em centros comerciais climatizados, nem de lhes atribuir fun\u00e7\u00f5es que n\u00e3o lhes pertencem. Trata-se apenas de recordar que a hospitalidade sempre foi uma das linguagens mais eloquentes da f\u00e9. \u00c9 precisamente nestes pequenos gestos que uma comunidade revela quem verdadeiramente \u00e9, porque acolher algu\u00e9m que procura abrigo do calor n\u00e3o \u00e9 uma distra\u00e7\u00e3o relativamente \u00e0 miss\u00e3o da Igreja. \u00c9 uma das formas mais antigas de a cumprir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Penso, por vezes, no espanto que esta discuss\u00e3o poderia provocar aos nossos antepassados. Eles, que constru\u00edram igrejas no centro das aldeias e das cidades, dificilmente compreenderiam a necessidade contempor\u00e2nea de decidir sobre a possibilidade de as utilizar para proteger pessoas vulner\u00e1veis durante alguns dias particularmente dif\u00edceis. Talvez nos perguntassem, com uma simplicidade desarmante: ent\u00e3o, para que julgavam voc\u00eas que serviam as portas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naturalmente, nem todas as igrejas t\u00eam as mesmas condi\u00e7\u00f5es. Nem todas podem responder da mesma maneira. Mas talvez a quest\u00e3o mais importante n\u00e3o seja log\u00edstica. Talvez seja espiritual. Ou, se preferirmos, humana. H\u00e1 momentos em que uma porta aberta vale mais do que muitos discursos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E talvez, quando este ver\u00e3o passar, como todos os ver\u00f5es acabam por passar, possamos recordar que, no meio do calor abrasador, houve lugares que ofereceram algo mais do que alguns graus a menos. Ofereceram aquilo que as igrejas sempre procuraram oferecer ao longo dos s\u00e9culos: a certeza de que ningu\u00e9m deve enfrentar sozinho as intemp\u00e9ries da vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, quando as temperaturas finalmente descerem, pode ser que descubramos que aquilo que realmente refrescou o ambiente n\u00e3o foi apenas a espessura das paredes ou a sombra das pedras antigas, mas a simples decis\u00e3o de abrir uma porta e dizer: \u201cEntre. Aqui h\u00e1 lugar para si.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembro-me de, na minha inf\u00e2ncia, passar por uma igreja e saber, quase instintivamente, que a porta estaria aberta. Pod\u00edamos entrar. \u00c0s vezes para rezar, outras vezes apenas para permanecer alguns minutos em sil\u00eancio, naquele ambiente fresco e sereno que parecia existir fora do ritmo acelerado da vida quotidiana. 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