{"id":3478,"date":"2026-09-25T10:10:35","date_gmt":"2026-09-25T09:10:35","guid":{"rendered":"https:\/\/pauloadriano.pt\/?p=3478"},"modified":"2026-09-25T10:10:35","modified_gmt":"2026-09-25T09:10:35","slug":"quando-a-ma-educacao-da-palco-ou-os-meus-cinco-centimos-sobre-a-trend-do-momento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/2026\/09\/25\/quando-a-ma-educacao-da-palco-ou-os-meus-cinco-centimos-sobre-a-trend-do-momento\/","title":{"rendered":"Quando a m\u00e1 educa\u00e7\u00e3o d\u00e1 palco (ou os meus cinco c\u00eantimos sobre a trend do momento)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 dias, a meio de um concerto, uma espectadora achou por bem interromper o artista e p\u00f4r-se a cantar. Algu\u00e9m filmou, o v\u00eddeo circulou e, em poucas horas, j\u00e1 meio pa\u00eds o tinha visto. Nada de novo. As redes sociais habituaram-nos a que qualquer epis\u00f3dio, por mais banal, chegue a milhares de pessoas antes do jantar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mais curioso veio depois. A senhora passou a ser procurada pelos jornais, sentou-se em sof\u00e1s de televis\u00e3o, deu entrevistas. Ganhou um pequeno estatuto de celebridade. Um gesto de pura falta de considera\u00e7\u00e3o, por quem estava em palco e por quem tinha pago bilhete para ouvir outra pessoa, acabou por render. Rendeu aquilo que hoje mais se disputa, que \u00e9 aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 a l\u00f3gica da economia da aten\u00e7\u00e3o, que nasceu nas redes sociais e que os meios de comunica\u00e7\u00e3o foram adotando sem grande resist\u00eancia. O absurdo, o provocador ou o simplesmente deslocado leva quase sempre vantagem sobre o normal. Uma grosseria gera mais partilhas do que uma frase sensata, e um comportamento que noutros tempos valia um olhar de reprova\u00e7\u00e3o pode hoje valer um convite para o programa da manh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o tenho saudades de uma sociedade cinzenta e bem-comportada, incapaz de lidar com a irrever\u00eancia. A irrever\u00eancia faz falta, questiona conven\u00e7\u00f5es e muitas vezes faz-nos rir. S\u00f3 que irrever\u00eancia e incivilidade s\u00e3o coisas diferentes, e a liberdade de cada um n\u00e3o transforma em virtude a falta de respeito pelos outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Onde isto me incomoda mais \u00e9 quando entram os meios de comunica\u00e7\u00e3o. Percebe-se que um v\u00eddeo viral seja not\u00edcia, porque as pessoas querem saber o que se passou. Mas noticiar o epis\u00f3dio \u00e9 uma coisa, fazer da protagonista uma figura medi\u00e1tica \u00e9 outra. Quando algu\u00e9m ganha visibilidade precisamente por ter passado das marcas, o palco que lhe damos j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 neutro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ningu\u00e9m precisa de dizer a ningu\u00e9m &#8220;fa\u00e7am como ela&#8221;. A recompensa encarrega-se disso. Se uma m\u00e1-cria\u00e7\u00e3o d\u00e1 seguidores, entrevistas e convites, a li\u00e7\u00e3o aprende-se depressa: transgredir compensa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Houve um tempo em que a exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica funcionava como castigo. Hoje, com toda a gente a disputar os mesmos segundos de aten\u00e7\u00e3o, pode funcionar como rampa de lan\u00e7amento. O que devia envergonhar passa a ser oportunidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da pr\u00f3xima vez que um epis\u00f3dio destes nos cair no telem\u00f3vel (e vai cair), talvez valha a pena pensar duas vezes antes de lhe dar mais palco. Aquilo a que damos aten\u00e7\u00e3o acaba, mais cedo ou mais tarde, por ser aquilo que ensinamos a valorizar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 dias, a meio de um concerto, uma espectadora achou por bem interromper o artista e p\u00f4r-se a cantar. Algu\u00e9m filmou, o v\u00eddeo circulou e, em poucas horas, j\u00e1 meio pa\u00eds o tinha visto. Nada de novo. 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