{"id":3482,"date":"2026-10-07T12:54:08","date_gmt":"2026-10-07T11:54:08","guid":{"rendered":"https:\/\/pauloadriano.pt\/?p=3482"},"modified":"2026-10-07T12:54:08","modified_gmt":"2026-10-07T11:54:08","slug":"comunicar-demais-e-comunicar-pior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/2026\/10\/07\/comunicar-demais-e-comunicar-pior\/","title":{"rendered":"Comunicar demais \u00e9 comunicar pior"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(mais alguns dos meus c\u00eantimos sobre o tema do momento que, admito, nem devia s\u00ea-lo; vejam esta discorr\u00eancia apenas como uma reflex\u00e3o pessoal sobre comunica\u00e7\u00e3o institucional)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O comunicado de Cristiano Ronaldo sobre os acontecimentos no \u00faltimo est\u00e1gio da Sele\u00e7\u00e3o Nacional merece ser analisado para al\u00e9m da pol\u00e9mica desportiva e da discuss\u00e3o sobre quem tem raz\u00e3o. Do ponto de vista comunicacional, interessa sobretudo perceber se a op\u00e7\u00e3o tomada protege a reputa\u00e7\u00e3o do jogador, contribui para esclarecer os acontecimentos e respeita a dimens\u00e3o institucional inerente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de capit\u00e3o. A minha leitura \u00e9 que, apesar da inten\u00e7\u00e3o evidente de defender a sua imagem e apresentar a sua vers\u00e3o dos factos, o comunicado acaba, em v\u00e1rios momentos, por produzir o efeito contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma comunica\u00e7\u00e3o longa e fora de tempo<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A efic\u00e1cia da comunica\u00e7\u00e3o de crise depende n\u00e3o apenas do conte\u00fado, mas tamb\u00e9m da oportunidade, da proporcionalidade e da capacidade de definir uma mensagem essencial. Neste caso, a extens\u00e3o do comunicado dificulta essa fun\u00e7\u00e3o: a sucess\u00e3o minuciosa de conversas, reuni\u00f5es, testemunhas e epis\u00f3dios dilui aquilo que poderia ser explicado em poucas ideias fundamentais. Acresce o problema do tempo. Quando o texto surge, o epis\u00f3dio j\u00e1 tinha atravessado v\u00e1rios ciclos noticiosos, com primeiras p\u00e1ginas, aberturas de notici\u00e1rios e incont\u00e1veis coment\u00e1rios. Em vez de contribuir para o encerramento do assunto, o comunicado introduz novos elementos e novos protagonistas, oferecendo mat\u00e9ria suficiente para reiniciar a pol\u00e9mica. Em comunica\u00e7\u00e3o de crise, comunicar tarde e extensamente pode ser t\u00e3o contraproducente como n\u00e3o comunicar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A defesa pessoal e a responsabilidade institucional<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais relevante \u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica de conversas e compromissos que pertenciam \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre jogador, selecionador e Federa\u00e7\u00e3o. Cristiano Ronaldo n\u00e3o se limita a afirmar que se sentiu desrespeitado ou que considerou quebrada a confian\u00e7a: identifica testemunhas, descreve reuni\u00f5es privadas e reproduz aquilo que afirma ter sido acordado para uma interven\u00e7\u00e3o p\u00fablica de Jorge Jesus. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 saber se esses factos s\u00e3o verdadeiros, mas se deveriam ter sido tornados p\u00fablicos desta forma. Um capit\u00e3o n\u00e3o comunica apenas enquanto indiv\u00edduo que pretende defender a sua reputa\u00e7\u00e3o. Integra uma estrutura, representa uma institui\u00e7\u00e3o e est\u00e1 sujeito \u00e0 autoridade do selecionador. Ao expor publicamente aquilo que o treinador teria prometido dizer e ao censur\u00e1-lo por n\u00e3o o ter feito, o comunicado transforma uma diverg\u00eancia interna numa disputa p\u00fablica de autoridade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O paradoxo da excepcionalidade<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe ainda uma contradi\u00e7\u00e3o entre a mensagem que Ronaldo procura transmitir e aquilo que o pr\u00f3prio relato deixa perceber. O jogador insiste que nunca pretendeu interferir nas decis\u00f5es t\u00e9cnicas, que aceita as op\u00e7\u00f5es do treinador e que as regras devem ser iguais para todos. No entanto, descreve um conjunto extraordinariamente complexo de procedimentos em torno da sua utiliza\u00e7\u00e3o: reuni\u00f5es particulares, um plano individual previamente negociado, conversas com o presidente da Federa\u00e7\u00e3o, testemunhas, uma reuni\u00e3o para resolver o conflito e at\u00e9 um documento destinado a enquadrar aquilo que o selecionador deveria dizer publicamente. A tentativa de demonstrar normalidade acaba, assim, por evidenciar excepcionalidade. E permite uma pergunta inevit\u00e1vel: dever\u00e1 a gest\u00e3o da utiliza\u00e7\u00e3o de um jogador, independentemente do seu estatuto, exigir este grau de negocia\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Autenticidade n\u00e3o significa dizer tudo<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A comunica\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea valorizou a proximidade, a primeira pessoa e a possibilidade de as figuras p\u00fablicas comunicarem directamente com as suas audi\u00eancias. Mas a experi\u00eancia na comunica\u00e7\u00e3o institucional mostra tamb\u00e9m os limites desse paradigma: transpar\u00eancia n\u00e3o significa exposi\u00e7\u00e3o integral, autenticidade n\u00e3o significa aus\u00eancia de media\u00e7\u00e3o e comunicar directamente n\u00e3o dispensa pondera\u00e7\u00e3o. Saber comunicar implica igualmente saber seleccionar, hierarquizar e preservar aquilo que deve permanecer no dom\u00ednio interno. Neste caso, o registo pessoal e emocional, culminando nas refer\u00eancias \u00e0 inf\u00e2ncia dif\u00edcil, \u00e0 fome e \u00e0 morte do pai, acrescenta pouco ao esclarecimento do epis\u00f3dio concreto e aproxima o texto de uma tentativa de mobiliza\u00e7\u00e3o do patrim\u00f3nio emocional e simb\u00f3lico de uma carreira extraordin\u00e1ria para sustentar uma posi\u00e7\u00e3o num conflito presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00abmais pura das verdades\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00faltima frase acaba por condensar algumas das fragilidades do comunicado: \u00abEsta \u00e9, acreditem, a mais pura das verdades.\u00bb Num conflito em que existem diferentes intervenientes, Cristiano Ronaldo \u00e9 necessariamente uma das partes e n\u00e3o uma inst\u00e2ncia exterior capaz de determinar, por si s\u00f3, a verdade definitiva dos acontecimentos. Depois de uma extensa argumenta\u00e7\u00e3o destinada a conferir credibilidade \u00e0 sua vers\u00e3o, terminar pedindo ao p\u00fablico que acredite na \u00abmais pura das verdades\u00bb produz um efeito paradoxal. A credibilidade constr\u00f3i-se pela consist\u00eancia dos factos, pela sobriedade e pela confian\u00e7a que o emissor inspira; raramente se refor\u00e7a pela proclama\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria veracidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando menos teria sido mais<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma comunica\u00e7\u00e3o mais curta poderia ter protegido melhor Cristiano Ronaldo e, simultaneamente, preservado a autoridade do selecionador e da Federa\u00e7\u00e3o. Bastaria esclarecer que nunca exigiu jogar, reconhecer que considerou quebrados compromissos assumidos consigo, pedir desculpa pelo abandono do est\u00e1gio e aceitar as respectivas consequ\u00eancias, remetendo as diverg\u00eancias restantes para o interior da Sele\u00e7\u00e3o. Seria uma resposta mais coerente com a responsabilidade de quem n\u00e3o \u00e9 apenas uma das maiores figuras do futebol portugu\u00eas, mas tamb\u00e9m capit\u00e3o e representante de uma institui\u00e7\u00e3o. Porque, em comunica\u00e7\u00e3o, a dimens\u00e3o p\u00fablica de uma personalidade n\u00e3o aumenta a necessidade de dizer tudo. Pelo contr\u00e1rio: quanto maior \u00e9 o estatuto, maior deve ser a capacidade de distinguir aquilo que precisa de ser dito daquilo que deve permanecer por dizer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(mais alguns dos meus c\u00eantimos sobre o tema do momento que, admito, nem devia s\u00ea-lo; vejam esta discorr\u00eancia apenas como uma reflex\u00e3o pessoal sobre comunica\u00e7\u00e3o institucional) O comunicado de Cristiano Ronaldo sobre os acontecimentos no \u00faltimo est\u00e1gio da Sele\u00e7\u00e3o Nacional merece ser analisado para al\u00e9m da pol\u00e9mica desportiva e da discuss\u00e3o sobre quem tem raz\u00e3o. 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