{"id":3484,"date":"2026-10-12T13:04:35","date_gmt":"2026-10-12T12:04:35","guid":{"rendered":"https:\/\/pauloadriano.pt\/?p=3484"},"modified":"2026-10-12T13:04:35","modified_gmt":"2026-10-12T12:04:35","slug":"chat-cumo-caracas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/2026\/10\/12\/chat-cumo-caracas\/","title":{"rendered":"Chat cum\u00f3 cara\u00e7as!"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui entre n\u00f3s, que ningu\u00e9m nos ouve, tenho uma ligeira impress\u00e3o de que a intelig\u00eancia artificial generativa \u00e9 uma forma bem sofisticada de atestar a nossa ignor\u00e2ncia e p\u00f4r em causa, se n\u00e3o o nosso profissionalismo, pelo menos o conhecimento que temos da \u00e1rea em que nos espraiamos nos afazeres que nos permitem levar, ao fim do m\u00eas, o guito necess\u00e1rio para, pelo menos, termos comida na mesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Num dos textos mais recentes que tive a aleivosidade de escrever neste recept\u00e1culo de dichotes digital, falei sobre essa j\u00e1 sobejamente conhecida prosa do suprassumo do ludop\u00e9dio mundial, travestida de comunicado. Em breve disserta\u00e7\u00e3o, defendi a tese de que o prolixo texto era desconforme \u00e0s estritas regras do formato que se imp\u00f5e naqueles casos. (E, para aumentar aquilo que agora designam por poder de tra\u00e7\u00e3o, podem ver a\u00ed no meu espa\u00e7o de discorr\u00eancias e alarvidades a que chamam perfil de perfil de Facebook.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tinha eu alinhavado os t\u00f3picos dessa minha exposi\u00e7\u00e3o, e veio-me a peregrina, mas nem por isso pouco habitual, ideia de fazer ao Cl\u00e1udio \u2014 chamemos-lhe assim, mesmo tendo sido a iag que primeiro veio ao mundo \u2014 a impertinente e \u00f3bvia quest\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Ent\u00e3o, o que achaste do comunicado?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda estou por saber se a resposta foi uma verdadeira an\u00e1lise cient\u00edfica da grandiloquente prosa do atleta ou se foi resultado de cont\u00e1gio de ronaldismo avan\u00e7ado. Resumidamente, embora pudesse ser posto em causa um ou outro pormenor de somenos, a estrutura e o conte\u00fado da coisa at\u00e9 que estavam bem conseguidos e cumpriam os par\u00e2metros necess\u00e1rios para que pudessem ter o resultado pretendido. Foi neste ponto que a minha autoestima, que at\u00e9 nem \u00e9 grande coisa, resvalou pela encosta abaixo, arrastando consigo aquilo que eu imaginava ser algum saber adquirido. Praticamente, os or\u00e1culos que eu tinha esquissado eram chutados para canto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, como sou gajo para n\u00e3o se deixar ficar, fiz-lhe saber qual era a minha ideia sobre o assunto. A continuidade da intera\u00e7\u00e3o j\u00e1 devem imaginar qual ter\u00e1 sido e segue a l\u00f3gica da reconhecida rea\u00e7\u00e3o com laivos de bajula\u00e7\u00e3o. Porque \u00e9 assim que, sim senhor, se agarram os clientes, numa l\u00f3gica a que podemos associar \u00e0 teoria do vi\u00e9s da confirma\u00e7\u00e3o (par\u00eantesis para explicar que esta rea\u00e7\u00e3o da IA tem o nome t\u00e9cnico de &#8220;AI sycophancy&#8221; ou &#8220;adula\u00e7\u00e3o da IA&#8221;). Portanto, \u00e9 f\u00e1cil de imaginar a resposta do Cl\u00e1udio, qualquer coisa como:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Tens raz\u00e3o, n\u00e3o tinha pensado nessa perspectiva, valorizei demasiado outros aspectos, bla bla bla\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na resposta, l\u00e1 lhe disse que, \u00f3 Cl\u00e1udio, tu n\u00e3o podes ser assim: se \u00e9 para me massajares o ego com aquilo que tu pensas que \u00e9 m\u00fasica para os meus ouvidos, bem que podes ir pregar para outra freguesia que eu n\u00e3o estou para isso. Basicamente, dei in\u00edcio a um arrufo apenas com a ideia de querer ver onde chegaria com ele e acabei por lhe propor o desafio de contradizer as\u00a0minhas notas iniciais relativamente ao comunicado. Com jeitinho, n\u00e3o fosse eu ficar ofendido com o seu contradit\u00f3rio, l\u00e1 me enumerou um ou dois contrapontos para cada assunto que eu tinha previsto desenvolver.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como nestas coisas da dial\u00e9tica as adversativas s\u00e3o o que mais existe, j\u00e1 podem imaginar a continua\u00e7\u00e3o da conversa. Talvez esperasse do Cl\u00e1udio qualquer coisa como \u201cnem mas, nem meio mas\u201d, mas j\u00e1 vi que, por muito paternalista que seja, n\u00e3o \u00e9 tipo para resolver as coisas \u00e0 moda antiga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante disto tudo, ocorre-me a mais inquietante das conclus\u00f5es: se aquilo me d\u00e1 raz\u00e3o quando digo uma coisa e volta a dar-me raz\u00e3o quando digo precisamente o contr\u00e1rio, das duas uma: ou sou um g\u00e9nio de uma versatilidade intelectual absolutamente extraordin\u00e1ria ou ando a discutir com um espelho que aprendeu a escrever. E, conhecendo-me como me conhe\u00e7o, inclino-me perigosamente para a segunda hip\u00f3tese. Acabei por desistir da contenda.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E assim fic\u00e1mos, eu e o Cl\u00e1udio, em perfeita harmonia intelectual: ele convencido de que tinha sido prest\u00e1vel e eu desconfiado de que acabara de perder uma discuss\u00e3o que, afinal, nunca tinha chegado a existir. O pior \u00e9 que, depois de tudo isto, ainda lhe perguntei se achava que este texto estava bem escrito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Est\u00e1 excelente! \u2014 respondeu-me.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porra, Cl\u00e1udio! (E pedi-lhe para fazer um desenho.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aqui entre n\u00f3s, que ningu\u00e9m nos ouve, tenho uma ligeira impress\u00e3o de que a intelig\u00eancia artificial generativa \u00e9 uma forma bem sofisticada de atestar a nossa ignor\u00e2ncia e p\u00f4r em causa, se n\u00e3o o nosso profissionalismo, pelo menos o conhecimento que temos da \u00e1rea em que nos espraiamos nos afazeres que nos permitem levar, ao [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-3484","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao-leiria-fatima"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3484","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3484"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3484\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3485,"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3484\/revisions\/3485"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3484"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3484"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pauloadriano.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3484"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}