(mais alguns dos meus cêntimos sobre o tema do momento que, admito, nem devia sê-lo; vejam esta discorrência apenas como uma reflexão pessoal sobre comunicação institucional)
O comunicado de Cristiano Ronaldo sobre os acontecimentos no último estágio da Seleção Nacional merece ser analisado para além da polémica desportiva e da discussão sobre quem tem razão. Do ponto de vista comunicacional, interessa sobretudo perceber se a opção tomada protege a reputação do jogador, contribui para esclarecer os acontecimentos e respeita a dimensão institucional inerente à condição de capitão. A minha leitura é que, apesar da intenção evidente de defender a sua imagem e apresentar a sua versão dos factos, o comunicado acaba, em vários momentos, por produzir o efeito contrário.
Uma comunicação longa e fora de tempo
A eficácia da comunicação de crise depende não apenas do conteúdo, mas também da oportunidade, da proporcionalidade e da capacidade de definir uma mensagem essencial. Neste caso, a extensão do comunicado dificulta essa função: a sucessão minuciosa de conversas, reuniões, testemunhas e episódios dilui aquilo que poderia ser explicado em poucas ideias fundamentais. Acresce o problema do tempo. Quando o texto surge, o episódio já tinha atravessado vários ciclos noticiosos, com primeiras páginas, aberturas de noticiários e incontáveis comentários. Em vez de contribuir para o encerramento do assunto, o comunicado introduz novos elementos e novos protagonistas, oferecendo matéria suficiente para reiniciar a polémica. Em comunicação de crise, comunicar tarde e extensamente pode ser tão contraproducente como não comunicar.
A defesa pessoal e a responsabilidade institucional
Mais relevante é a exposição pública de conversas e compromissos que pertenciam à relação entre jogador, selecionador e Federação. Cristiano Ronaldo não se limita a afirmar que se sentiu desrespeitado ou que considerou quebrada a confiança: identifica testemunhas, descreve reuniões privadas e reproduz aquilo que afirma ter sido acordado para uma intervenção pública de Jorge Jesus. A questão não é saber se esses factos são verdadeiros, mas se deveriam ter sido tornados públicos desta forma. Um capitão não comunica apenas enquanto indivíduo que pretende defender a sua reputação. Integra uma estrutura, representa uma instituição e está sujeito à autoridade do selecionador. Ao expor publicamente aquilo que o treinador teria prometido dizer e ao censurá-lo por não o ter feito, o comunicado transforma uma divergência interna numa disputa pública de autoridade.
O paradoxo da excepcionalidade
Existe ainda uma contradição entre a mensagem que Ronaldo procura transmitir e aquilo que o próprio relato deixa perceber. O jogador insiste que nunca pretendeu interferir nas decisões técnicas, que aceita as opções do treinador e que as regras devem ser iguais para todos. No entanto, descreve um conjunto extraordinariamente complexo de procedimentos em torno da sua utilização: reuniões particulares, um plano individual previamente negociado, conversas com o presidente da Federação, testemunhas, uma reunião para resolver o conflito e até um documento destinado a enquadrar aquilo que o selecionador deveria dizer publicamente. A tentativa de demonstrar normalidade acaba, assim, por evidenciar excepcionalidade. E permite uma pergunta inevitável: deverá a gestão da utilização de um jogador, independentemente do seu estatuto, exigir este grau de negociação?
Autenticidade não significa dizer tudo
A comunicação contemporânea valorizou a proximidade, a primeira pessoa e a possibilidade de as figuras públicas comunicarem directamente com as suas audiências. Mas a experiência na comunicação institucional mostra também os limites desse paradigma: transparência não significa exposição integral, autenticidade não significa ausência de mediação e comunicar directamente não dispensa ponderação. Saber comunicar implica igualmente saber seleccionar, hierarquizar e preservar aquilo que deve permanecer no domínio interno. Neste caso, o registo pessoal e emocional, culminando nas referências à infância difícil, à fome e à morte do pai, acrescenta pouco ao esclarecimento do episódio concreto e aproxima o texto de uma tentativa de mobilização do património emocional e simbólico de uma carreira extraordinária para sustentar uma posição num conflito presente.
A «mais pura das verdades»
A última frase acaba por condensar algumas das fragilidades do comunicado: «Esta é, acreditem, a mais pura das verdades.» Num conflito em que existem diferentes intervenientes, Cristiano Ronaldo é necessariamente uma das partes e não uma instância exterior capaz de determinar, por si só, a verdade definitiva dos acontecimentos. Depois de uma extensa argumentação destinada a conferir credibilidade à sua versão, terminar pedindo ao público que acredite na «mais pura das verdades» produz um efeito paradoxal. A credibilidade constrói-se pela consistência dos factos, pela sobriedade e pela confiança que o emissor inspira; raramente se reforça pela proclamação da própria veracidade.
Quando menos teria sido mais
Uma comunicação mais curta poderia ter protegido melhor Cristiano Ronaldo e, simultaneamente, preservado a autoridade do selecionador e da Federação. Bastaria esclarecer que nunca exigiu jogar, reconhecer que considerou quebrados compromissos assumidos consigo, pedir desculpa pelo abandono do estágio e aceitar as respectivas consequências, remetendo as divergências restantes para o interior da Seleção. Seria uma resposta mais coerente com a responsabilidade de quem não é apenas uma das maiores figuras do futebol português, mas também capitão e representante de uma instituição. Porque, em comunicação, a dimensão pública de uma personalidade não aumenta a necessidade de dizer tudo. Pelo contrário: quanto maior é o estatuto, maior deve ser a capacidade de distinguir aquilo que precisa de ser dito daquilo que deve permanecer por dizer.