ordinary people

Naquela a que chamam cidade eterna, os últimos momentos passo-os ali mesmo, em frente à Basílica de São Pedro. Na mesa do café, um ‘espresso lungo’ e uma ‘acqua gasata’ acompanham-me em mais uma tentativa de diatribe literária, em jeito de memória e agradecimento.

Dos souvenirs para a família tratei na tarde do dia anterior: três porta-chaves com as iniciais dos meus três apelidos, para levar, como recordação, aos meus mais que tudo — mulher e filhos. Sim, coincidências da vida: as letras com que começam os nomes deles são as mesmas com que começam os meus apelidos. Já ouvi chamar-lhes deusidências. E faz sentido.

Os cinco dias mais recentes foram um verdadeiro turbilhão de conferências com gente que fez da pena a sua ferramenta e da palavra a sua matéria-prima. A maior parte, jornalistas da capital; alguns deles, companhia fugaz e conhecida do ecrã dessa caixa que mudou o mundo.

Ontem, quarta-feira, ao almoço, tivemos mais uma das habituais prelecções. Aqui, a degustação das pastas romanas não impede que se saboreiem também o conhecimento e a experiência dos convidados da organização. Dessa conversa à mesa retirei o nome que dou agora a esta prosa. Um filme que fala de relações, dizia o insigne orador.

É isso mesmo. Mais do que aprender, alargar conhecimento ou assimilar experiências, estes dias foram dias para criar relações. É isso que mais me trouxe aqui. É isso que mais levo daqui.

Nos preparativos da viagem, confesso, a vontade não era muita. Fugir à rotina, deixar o conforto dos hábitos, é para mim um tormento que só se mitiga pelo gosto de viajar até uma cidade que começa também a ser minha e na qual já se vislumbram, em mim, discretos gestos de anfitrião. Faz este ano dez anos que a calcorreei pela primeira vez. Já passou uma década desde que me deixei maravilhar pelas igrejas, pelas praças, pelas ruas, pelos edifícios que, amiúde, me vão contando histórias e vidas de séculos.

Foi também aqui que aprendi a aceitar o óbvio: não sou muito de falar; sou mais de escrever. Prefiro pensar e pesar palavras, às vezes brincar com elas, do que debitá-las em discurso oral. Em vez de contar histórias de viva voz, a falta de jeito para a oratória compensa-se, em mim, com a dedicação à escrita — ó presunção a minha —, porque é ela que me ajuda a preservá-las na memória.

Tenho para mim que talvez essa seja uma definição possível de gente vulgar: sou vulgar, de relações simples, mas com o gosto previsível por ouvir uma boa história. Talvez por isso os meus momentos preferidos tenham sido precisamente esses em que a vida se fez conversa partilhada, como naquela noite, na praça em forma de nave, em que, para lá da ‘birra’ que me deixou a garganta pouco recomendável, bebi as histórias de gente amiga que parecia ter corrido mundo só para estar ali, a contar-me o que viu e viveu.

Este foi o filme que vi, e vivi, nestes dias: o de gente comum, no sentido mais bonito e mais sincero de quem constrói relações que, ainda que breves, marcam indelevelmente uma vida. Tudo pode terminar hoje, e a vida de cada um de nós levar-nos para onde somos esperados, longe uns dos outros. Mas já é tarde para fugir à marca que ficou.

Aos que a provocaram, sobretudo àqueles que, durante meses, programaram o inesquecível: ‘grazie mille’. Não escrevo nomes, mas é por eles que me vem à memória My Favourite Things, uma das canções da Maria em The Sound Of Music: há pessoas, encontros e gestos que passam a morar dentro de nós como algumas das nossas coisas preferidas. E, quando assim é, a gratidão torna-se a forma mais justa de recordar.


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