Celeste

Como em todas as quintas-feiras, ainda a jornada mal despertou e ela já lá está — discreta, pontual, quase silenciosa. Traz consigo o aspirador, o balde, a vassoura, o pano do pó e todos os pequenos instrumentos de um ofício tantas vezes invisível, mas indispensável.

É uma mulher simples, de simpatia tranquila, sem alardes nem pretensões. Cumprimenta com um “bom dia” que carrega a leveza de quem não espera nada em troca. Respondo, agradeço, e digo-lhe que aproveito para ir tomar um café, deixando-lhe o espaço e o tempo. Ela fica. Eu saio.

Quando regresso, o gabinete já não é o mesmo. Há uma ordem nova no ar, um cuidado que se sente antes mesmo de se ver. O cheiro a limpo instala-se como um convite silencioso — quase como se dissesse que também o trabalho pode começar de novo, melhor, mais leve.

E, no entanto, fico com a sensação de que nunca agradeci como devia. Como se as palavras tivessem ficado sempre aquém daquilo que, na verdade, é um gesto grande. Porque não há trabalhos menores — há apenas mãos que cuidam, muitas vezes em silêncio, para que tudo o resto aconteça.

Ela, fiel à sua rotina, regressará na próxima quinta-feira, com a mesma serenidade de sempre.

E eu deixo isto aqui, hoje, como quem finalmente encontra as palavras: obrigado, Celeste.


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