O que os incêndios deixaram, a Kristin levou

Há perdas que têm nome próprio. Esta tinha.

O Eucalipto do Tremelgo estava no Pinhal do Rei, na Marinha Grande, com os seus 53 metros de altura e os seus mais de 165 anos de existência. Cento e sessenta e cinco anos. Enquanto Portugal atravessava guerras, regimes e revoluções, aquela árvore crescia. Classificada de interesse público desde 1997 — como se a lei precisasse de confirmar o que qualquer pessoa que uma vez lhe levantou os olhos já sabia —, o Eucalipto do Tremelgo era uma das árvores mais emblemáticas e volumosas de toda a Mata Nacional. Um gigante quase solitário num espaço que os incêndios de 2017 tinham deixado em ferida aberta, cercado de ausências, de tocos e de cinza de memória.

E foi isso que tornava a sua sobrevivência ao grande incêndio de 2017 numa espécie de milagre. Enquanto tudo à volta ardia, ele ficou de pé. Ficou de pé como ficam os velhos que enterraram os filhos — com uma dignidade que dói de ver. Tornou-se, nesse espaço devastado, não apenas uma árvore mas um símbolo: o de que é possível resistir, de que a vida insiste, de que nem tudo se perde de uma vez.

Em janeiro de 2026, caiu. “Jaz morto, e arrefece.”

Não foi o fogo desta vez. Foi o vento. Foi a tempestade Kristin, com a sua indiferença de fenómeno climático, sem rancor e sem consciência, que derrubou o que as chamas não tinham conseguido. E com ele tombou qualquer coisa que não era apenas madeira — era uma testemunha. Era a prova viva de que ali, naquele pinhal que D. Dinis mandou plantar e que atravessou séculos como monumento vivo da relação entre os portugueses e a terra, havia continuidade. Havia fio. Havia ainda qualquer coisa que nos ligava ao passado pelo presente.

Esse fio partiu-se em janeiro.

Não foi a única perda. Ali ao lado, há, havia, o parque de merendas na Portela, que guardo dentro de mim como se guarda uma fotografia antiga: com aquela mistura de orgulho e de saudade que só sentimos pelas coisas que amámos sem saber que as estávamos a amar, só de passar ao lado quando vimos das praias para casa. Era uma das poucas manchas compactas e resistentes de pinheiro manso que ainda sobreviviam naquela faixa de litoral — verde escuro, cheiroso, denso, com aquele silêncio de resina e de agulhas que abafam o som dos passos. Um lugar que parecia imortal porque, de certa forma, precisávamos que o fosse.

Também não resistiu. “Jaz morto, e arrefece.”

Quando os incêndios varreram o Pinhal de Leiria, ficou uma ferida enorme, histórica. Agarrámo-nos ao pouco que sobrou como quem agarra os cacos de uma chávena partida, ainda esperando que sirvam para alguma coisa. O Eucalipto do Tremelgo era um desses cacos — o maior, o mais alto, o mais antigo. O parque da Portela era outro. A Kristin não quis saber. Derrubou e tombou e foi embora, que as tempestades não ficam a ver o estrago que fazem.

E eu, que apenas lá ia de passagem, não sei bem o que sinto. Ou sei, e é isso que me custa: sinto uma tristeza desproporcionada, ou, então, exactamente proporcional ao que se perdeu.

Os telhados que a Kristin arrancou já estão a ser repostos. Vemos as gentes a trabalhar, a subir e descer escadas, às vezzes a arriscar a vida pela reposição do tecto em que sempre se abrigaram. É assim com as casas: partem, reparam-se, e aguardam a próxima tragédia. A memória da tempestade vai apagando-se com o tempo, a tinta nova ajuda a esquecer. As pessoas têm essa capacidade admirável de reconstruir.

Mas a floresta não.

Uma árvore com 165 anos levou 165 anos a crescer. Uma mancha de pinheiro manso, com a sua teia de raízes, os seus líquenes e os seus pássaros e os seus fungos — um ecossistema que se construiu em décadas de paciência silenciosa. Não se repõe numa obra pública. Não se repõe num mandato autárquico. Não se repõe sequer numa geração. Planta-se, sim. Mas quem vai ver crescer serão os nossos filhos, e talvez os filhos dos nossos filhos, se a sorte — e o clima, e as políticas, e a atenção colectiva — estiver do nosso lado.

É esta assimetria que me parte. A facilidade com que se destrói e a lentidão com que se reconstrói. O tempo que a natureza precisa e o tempo que não temos. Às vezes vem-me uma vontade de chorar que não consigo explicar muito bem a quem não conhece aquelas árvores, aquele cheiro, aquele gigante de 53 metros que sobreviveu ao fogo mas não sobreviveu ao vento. Parece exagero. Não é.

Choro, quando choro, pelo que não voltará a ser igual enquanto tiver estes olhos que a terra há-de comer. E choro também por uma espécie de culpa colectiva que não sei bem como carregar — a de pertencer a uma civilização que percebeu tarde demais que o que estava a queimar, e a tombar, não era apenas madeira.

Mas existe, nisto tudo, qualquer coisa que me recusa o desespero definitivo. A terra que ficou não é terra morta. Está ferida, sim — mas ferida não é o mesmo que vazia. E aqui, como em qualquer lugar onde as pessoas ainda se lembram do nome das árvores que perderam, há quem esteja a plantar. Devagar, com as mãos na terra, sem câmaras, sem discursos. Há quem guarde fotografias do Eucalipto do Tremelgo como se guardam retratos de família. Há autarquias, algumas, a levar o repovoamento florestal a sério.

Não é suficiente. Mas é um começo.

E talvez seja isso o que nos pedem estas perdas: não o luto paralisante, mas o luto que age. A tristeza que planta. A saudade que não se deixa abater na nostalgia mas que se converte em compromisso: o de não deixar que a próxima geração herde apenas fotografias de como era o pinhal, de como era aquele eucalipto imenso e quieto e teimosamente vivo no meio de tanta destruição.

Para já começo por não esquecer. Por dizer o nome dos lugares: Eucalipto do Tremelgo, parque de merendas da Portela, Pinhal do Rei, Marinha Grande. Por contar que havia ali árvores que eram mais velhas do que as perguntas que hoje fazemos sobre o clima. Por insistir que isto não é um dano colateral de uma tempestade com nome de mulher. É uma perda com endereço, com cheiro, com altura — 53 metros de altura —, com história.

E as perdas com endereço merecem ser choradas. E depois, talvez, revertidas.


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