A estrada

Eu sou uma estrada.

Não uma estrada moderna, nem uma avenida iluminada de uma grande cidade. Sou apenas uma estrada, um daqueles caminhos discretos que cumprem a sua missão. Durante décadas, acordei todas as manhãs para receber trabalhadores apressados, comerciantes carregados de esperança, pais a levar os filhos à escola, ambulâncias em corrida contra o tempo e famílias que regressavam a casa ao final de mais um dia. Nunca pedi reconhecimento. As estradas não vivem para os aplausos. Vivem para servir.

Mas há mais de quatro meses que estou em silêncio.

Já não ouço o som dos motores nem as conversas apressadas de quem seguia viagem. Já não sinto o peso dos pneus nem o pulsar da vida que diariamente passava sobre mim. Hoje, escuto apenas o vento que percorre os meus limites e observo as barreiras que me impedem de cumprir aquilo para que fui construída. De vez em quando, alguém quer passar e olha para mim sem o poder fazer. Uns abanam a cabeça. Outros suspiram. Alguns tiram fotografias. Todos parecem fazer a mesma pergunta: “Até quando?” Gostava de lhes responder. Gostava de lhes dizer que também estou cansada de esperar.

Porque as estradas têm memória. E eu lembro-me de tudo.

Lembro-me das promessas feitas por mim. Lembro-me das visitas, das palavras otimistas, dos compromissos anunciados com convicção. Lembro-me das datas apontadas, dos prazos estabelecidos e da esperança que essas palavras despertaram em quem me conhece há tantos anos. Mas as semanas passaram. Depois os meses. E eu continuo aqui, imóvel, como uma porta fechada entre uma freguesia e o mundo. Não culpo a tempestade que me feriu. As tempestades fazem parte da vida. Chegam sem avisar, derrubam árvores, arrancam telhados, rasgam paisagens e obrigam-nos a recomeçar. O que me custa compreender é o silêncio que fica depois da tempestade partir.

As pessoas sabem esperar quando lhes dizem a verdade. Sabem ser pacientes quando sentem que alguém está a trabalhar para resolver os problemas. O que desgasta não é o tempo. É a incerteza. É a sensação de que ninguém sabe explicar quando tudo voltará ao normal. É a impressão de que as palavras circulam mais depressa do que as soluções.

Todos os dias vejo os habitantes de Amor percorrerem quilómetros adicionais para chegar aos mesmos destinos. Vejo comerciantes que perdem tempo e dinheiro. Vejo trabalhadores que saem mais cedo de casa para compensar os desvios. Vejo uma comunidade inteira a adaptar-se àquilo que deveria ser apenas uma situação temporária.

E penso que uma estrada não é apenas alcatrão. Uma estrada é proximidade. É desenvolvimento. É segurança. É qualidade de vida. É o caminho que liga pessoas, sonhos e oportunidades.

Talvez por isso me custe tanto estar fechada. Porque, quando uma estrada deixa de cumprir a sua função, não é apenas um caminho que desaparece. É uma parte da vida de uma comunidade que fica suspensa.

Continuarei aqui. À espera. À espera das máquinas que ainda não chegaram. À espera das respostas que ainda não foram dadas. À espera de voltar a ser aquilo que sempre fui. Um simples caminho. São os caminhos mais simples aqueles de que mais sentimos falta quando deixam de existir.


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