Categoria: Crónica

  • projetos que nos marcam

    Desde a virada para o novo milénio, fui descobrindo que desenvolver um website vai muito para além de escolher um tema, organizar páginas ou escrever código. É um exercício permanente de escuta, de observação e de melhoria contínua. É perceber como as pessoas utilizam uma plataforma, o que procuram, onde encontram dificuldades e como podemos…

  • Obrigado a quem nunca quis reciclar

    Há agradecimentos que a sociedade tarda em fazer. Hoje acordei com vontade de o fazer.  Agradeço, do fundo do coração, a todos aqueles que nunca separaram o lixo, aos que sempre olharam para os ecopontos como uma extravagância dispensável, aos que entendem a reciclagem como uma tarefa para os outros, aos que nunca perceberam que…

  • Tempo de abrir as portas

    Lembro-me de, na minha infância, passar por uma igreja e saber, quase instintivamente, que a porta estaria aberta. Podíamos entrar. Às vezes para rezar, outras vezes apenas para permanecer alguns minutos em silêncio, naquele ambiente fresco e sereno que parecia existir fora do ritmo acelerado da vida quotidiana. Aliás, entrar numa igreja para fazer uma…

  • A estrada

    Eu sou uma estrada. Não uma estrada moderna, nem uma avenida iluminada de uma grande cidade. Sou apenas uma estrada, um daqueles caminhos discretos que cumprem a sua missão. Durante décadas, acordei todas as manhãs para receber trabalhadores apressados, comerciantes carregados de esperança, pais a levar os filhos à escola, ambulâncias em corrida contra o…

  • A ferver em lume brando

    Há dias em que uma pessoa apenas quer um café. Apenas um café. Entrei naquele café com a serenidade de quem transporta dentro de si uma legítima expectativa de tranquilidade. Havia meia dúzia de pessoas, conversas em surdina, chávenas discretamente pousadas nos pires, o murmúrio confortável da normalidade humana. Aquele ruído civilizado que não incomoda…

  • Ambulatório

    Há dias em que uma pessoa sai de casa convencida de que vai apenas atravessar a cidade e regressar com meia dúzia de tarefas resolvidas. E depois acontece-lhe uma epifania sociológica em plena via pública. Desta vez, sob a forma de um iogurte líquido. Ela vinha a caminhar calmamente. Sem correria. Sem expressão de quem…

  • A ver-se no espelho

    (A propósito do 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, 17 de maio de 2026) Houve qualquer coisa naquele espelho que me ficou atravessada na alma. Estava inclinado sobre a rua, torcido pela violência da tempestade Kristin, como um corpo cansado que perdeu subitamente o equilíbrio. Não caiu. Não se partiu. Apenas ficou assim: desalinhado, suspenso…

  • ordinary people

    Naquela a que chamam cidade eterna, os últimos momentos passo-os ali mesmo, em frente à Basílica de São Pedro. Na mesa do café, um ‘espresso lungo’ e uma ‘acqua gasata’ acompanham-me em mais uma tentativa de diatribe literária, em jeito de memória e agradecimento. Dos souvenirs para a família tratei na tarde do dia anterior:…

  • Celeste

    Como em todas as quintas-feiras, ainda a jornada mal despertou e ela já lá está — discreta, pontual, quase silenciosa. Traz consigo o aspirador, o balde, a vassoura, o pano do pó e todos os pequenos instrumentos de um ofício tantas vezes invisível, mas indispensável. É uma mulher simples, de simpatia tranquila, sem alardes nem…

  • A caminho de Roma

    Hoje o dia começou a horas impróprias. Não que não costume fazer a habitual pausa de sono a essa hora, por obrigações fisiológicas que chegam com a idade — essa inevitabilidade insensível. São quatro da madrugada. Sei-o porque o despertador de pulso mo disse, naquele seu jeito peculiar de vibrar que discretamente me acorda todos…

  • Lisa cores

    Houve um tempo em que a Páscoa, para mim, chegava pela mão do padre — e vinha embrulhada em pequenas promessas de felicidade chamadas amêndoas. Não eram sofisticadas, nem particularmente subtis: uma amêndoa de sabor por vezes duvidoso, envolta numa camada generosa de açúcar duro, quase mineral, pintada em tons que oscilavam entre o branco,…

  • Baquetas

    Quando as mãos encontram as baquetas e os olhos se fecham para dentro, não existe palco, não existe plateia, não existe nada além do pulso que nasce do peito e se transforma em som. A postura curvada não é cansaço, é devoção. É o corpo inteiro a servir algo maior do que ele próprio. Tocar…

  • O que os incêndios deixaram, a Kristin levou

    Há perdas que têm nome próprio. Esta tinha. O Eucalipto do Tremelgo estava no Pinhal do Rei, na Marinha Grande, com os seus 53 metros de altura e os seus mais de 165 anos de existência. Cento e sessenta e cinco anos. Enquanto Portugal atravessava guerras, regimes e revoluções, aquela árvore crescia. Classificada de interesse…