Categoria: Crónica
-
A estrada
Eu sou uma estrada. Não uma estrada moderna, nem uma avenida iluminada de uma grande cidade. Sou apenas uma estrada, um daqueles caminhos discretos que cumprem a sua missão. Durante décadas, acordei todas as manhãs para receber trabalhadores apressados, comerciantes carregados de esperança, pais a levar os filhos à escola, ambulâncias em corrida contra o…
-
A ferver em lume brando
Há dias em que uma pessoa apenas quer um café. Apenas um café. Entrei naquele café com a serenidade de quem transporta dentro de si uma legítima expectativa de tranquilidade. Havia meia dúzia de pessoas, conversas em surdina, chávenas discretamente pousadas nos pires, o murmúrio confortável da normalidade humana. Aquele ruído civilizado que não incomoda…
-
Ambulatório
Há dias em que uma pessoa sai de casa convencida de que vai apenas atravessar a cidade e regressar com meia dúzia de tarefas resolvidas. E depois acontece-lhe uma epifania sociológica em plena via pública. Desta vez, sob a forma de um iogurte líquido. Ela vinha a caminhar calmamente. Sem correria. Sem expressão de quem…
-
A ver-se no espelho
(A propósito do 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, 17 de maio de 2026) Houve qualquer coisa naquele espelho que me ficou atravessada na alma. Estava inclinado sobre a rua, torcido pela violência da tempestade Kristin, como um corpo cansado que perdeu subitamente o equilíbrio. Não caiu. Não se partiu. Apenas ficou assim: desalinhado, suspenso…
-
ordinary people
Naquela a que chamam cidade eterna, os últimos momentos passo-os ali mesmo, em frente à Basílica de São Pedro. Na mesa do café, um ‘espresso lungo’ e uma ‘acqua gasata’ acompanham-me em mais uma tentativa de diatribe literária, em jeito de memória e agradecimento. Dos souvenirs para a família tratei na tarde do dia anterior:…
-
Celeste
Como em todas as quintas-feiras, ainda a jornada mal despertou e ela já lá está — discreta, pontual, quase silenciosa. Traz consigo o aspirador, o balde, a vassoura, o pano do pó e todos os pequenos instrumentos de um ofício tantas vezes invisível, mas indispensável. É uma mulher simples, de simpatia tranquila, sem alardes nem…
-
A caminho de Roma
Hoje o dia começou a horas impróprias. Não que não costume fazer a habitual pausa de sono a essa hora, por obrigações fisiológicas que chegam com a idade — essa inevitabilidade insensível. São quatro da madrugada. Sei-o porque o despertador de pulso mo disse, naquele seu jeito peculiar de vibrar que discretamente me acorda todos…
-
Lisa cores
Houve um tempo em que a Páscoa, para mim, chegava pela mão do padre — e vinha embrulhada em pequenas promessas de felicidade chamadas amêndoas. Não eram sofisticadas, nem particularmente subtis: uma amêndoa de sabor por vezes duvidoso, envolta numa camada generosa de açúcar duro, quase mineral, pintada em tons que oscilavam entre o branco,…
-
Baquetas
Quando as mãos encontram as baquetas e os olhos se fecham para dentro, não existe palco, não existe plateia, não existe nada além do pulso que nasce do peito e se transforma em som. A postura curvada não é cansaço, é devoção. É o corpo inteiro a servir algo maior do que ele próprio. Tocar…
-
O que os incêndios deixaram, a Kristin levou
Há perdas que têm nome próprio. Esta tinha. O Eucalipto do Tremelgo estava no Pinhal do Rei, na Marinha Grande, com os seus 53 metros de altura e os seus mais de 165 anos de existência. Cento e sessenta e cinco anos. Enquanto Portugal atravessava guerras, regimes e revoluções, aquela árvore crescia. Classificada de interesse…