Há agradecimentos que a sociedade tarda em fazer. Hoje acordei com vontade de o fazer.
Agradeço, do fundo do coração, a todos aqueles que nunca separaram o lixo, aos que sempre olharam para os ecopontos como uma extravagância dispensável, aos que entendem a reciclagem como uma tarefa para os outros, aos que nunca perceberam que uma embalagem vazia continua a ter valor depois de cumprir a sua função.
Obrigado. Sem a vossa perseverança, provavelmente nunca teria sido criado o sistema Volta.
Ontem fui devolver as inúmeras garrafas e latas que se tinham acumulado lá em casa e que habitualmente teriam acolhimento no ecoponto amarelo que fica a 400 metros. Não esperava fazer fortuna. Apenas queria recuperar os dez cêntimos de depósito que já tinha pago por cada recipiente no momento da compra. O dinheiro era meu. Estava apenas temporariamente alojado numa garrafa ou numa lata.

A máquina começou por colaborar.
Aceitou nove embalagens sem grande drama. Pelo meio, recebeu uma lata amachucada, uma garrafa sem tampa e até uma garrafa que, dias antes, ela própria rejeitara com o exagerado zelo de um funcionário da repartição das finanças. Desta vez, acolheu-a sem reservas, como se nada tivesse acontecido.
À décima embalagem, porém, a conversa mudou. Com uma educação irrepreensível, a máquina informou-me de que estava cheia. Pediu desculpa e sugeriu que chamasse um funcionário. Sim, as máquinas já dominam esta característica tão profundamente portuguesa: pedir desculpa por um problema cuja solução fica sempre para outra pessoa. Resolvi não incomodar ninguém. Peguei nas restantes embalagens para núpcias posteriores e fui embora.
Enquanto caminhava para o carro, ocorreu-me que esta pequena aventura só existe porque, durante demasiados anos, uma parte da sociedade decidiu que reciclar era uma opção imbecil.
Durante décadas explicaram-nos que separar resíduos poupava matérias-primas, reduzia a poluição e beneficiava toda a comunidade, mas, para muitos, isso nunca constituiu um argumento suficientemente convincente.
Foi preciso prender dez cêntimos dentro de cada embalagem. E é aí que se dá o milagre: de repente, aquilo que era lixo comum, passou a ser património.
É difícil não sorrir perante esta extraordinária demonstração da natureza humana. Afinal, a consciência ambiental revelou-se menos eficaz do que um depósito reembolsável.
Mas há um fenómeno ainda mais curioso. Entre os mais ferozes críticos do sistema encontram-se alguns dos que nunca fizeram questão de reciclar. Protestam contra a burocracia, contra as filas, contra as máquinas, contra o depósito, contra tudo. E, ao mesmo tempo, continuam a atirar embalagens para o lixo indiferenciado.
Até aqui, cada um prestava contas apenas à sua consciência. O problema é que alguns resolveram dar um passo adicional na escala da mesquinhez e passaram a esmagar deliberadamente as ‘suas’ latas. Retorcem as garrafas, inutilizam as embalagens antes de as deitar fora, não porque isso facilite o tratamento dos resíduos, nem porque seja ambientalmente correto. Apenas o fazem para garantir que, se eles não recuperam os dez cêntimos, também ninguém mais o fará.
É uma forma extraordinariamente sofisticada de egoísmo. A embalagem já não lhes interessa. O dinheiro também não. Mas incomoda-os a possibilidade de outra pessoa beneficiar daquilo que eles decidiram desperdiçar.
Há qualquer coisa de profundamente revelador numa sociedade onde alguns preferem destruir um bem sem qualquer proveito próprio, desde que impeçam outro de lhe dar utilidade. Não é uma atitude contra o sistema.
É apenas uma demonstração gratuita de pobreza cívica.
E é por causa destas pequenas imbecilidades quotidianas que o sistema Volta existe. Não foi criado para quem sempre reciclou. Esses já devolviam as embalagens aos ecopontos por convicção. Foi criado para tentar convencer quem nunca encontrou razões suficientes para o fazer. E, pelos vistos, ainda assim há quem consiga transformar uma simples garrafa vazia num manifesto contra o bom senso.
Por isso, renovo o meu agradecimento: obrigado a todos os que passaram anos a ignorar a reciclagem. Graças a essa persistência foi necessário inventar um sistema que prende dez cêntimos dentro de cada embalagem para conseguir aquilo que o simples sentido de responsabilidade nunca alcançou.
Não deixa de ser extraordinário: durante décadas tentou-se salvar o ambiente apelando à consciência e, no fim, descobriu-se que a única consciência verdadeiramente ativa continua a ser a da carteira.