Find my phone

Há dias que começam de forma perfeitamente banal e acabam a desafiar a nossa sanidade mental. O meu começou simples: tinha de ir aos correios tratar de um assunto — um daqueles que exigem presença física, senha e alguma fé na humanidade.

Estacionei o carro, saí, fui ao parquímetro e tratei do ticket. Tudo dentro da normalidade. Voltei ao carro para o colocar no para-brisas e, de repente, percebo que preciso do telemóvel para fazer o pagamento e, eventualmente, alguns trabalhos enquanto aguardo a minha vez. Procuro no bolso: nada.

– Bom, deve estar aqui algures, penso.

Abro o porta-luvas: vazio. Levanto o casaco do banco: nada. Espreito debaixo dos assentos com a dedicação de um arqueólogo: apenas pó, um papel esquecido e uma moeda de vinte cêntimos de origem duvidosa. Passo para o banco de trás, depois a bagageira, e volto à frente, já a sentir o desespero a instalar-se.

Dou mais uma volta completa ao carro, como se o telemóvel fosse aparecer por magia, e começo a ter pensamentos irracionais: “será que o deixei em casa?”, “terá caído para a rua?”, “alguém o levou?”

E é nesse estado de pré-pânico que continuo a conversa, muito a custo, com um amigo a dizer qualquer coisa do outro lado da linha.

Demorei uns segundos a processar. Linha? Que linha?

E foi aí que a verdade me atingiu com a delicadeza de uma bofetada: estava ao telefone! Tinha estado todo o tempo ao telefone! Com o próprio telemóvel que procurava!

Lembrei-me, depois, que por um instante, uma coisa que me tinha ocorrido foi pedir-lhe:

— Espera um bocadinho, que tenho de ir procurar o meu telemóvel.


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