Há acontecimentos que suspendem o ruído habitual da vida pública. A depressão Kristin foi um desses momentos: uma catástrofe rara, com impactos profundos na nossa região, deixando populações isoladas, milhares de casas sem eletricidade e, tragicamente, vítimas mortais. Nestes dias, o essencial tem sido o trabalho incansável de quem anda no terreno — técnicos, operacionais, bombeiros, autarcas de proximidade — a tentar repor serviços básicos em condições extremas.
É por isso que importa começar com um esclarecimento: este não é tempo de críticas fáceis, mas de reconhecimento e motivação para quem está a dar tudo por tudo. Faço apenas uma exceção, que não gostaria de tornar hábito.
O motivo é o cartaz que anuncia para hoje uma “vigília solidária pela população sem eletricidade”, com o apelo central “Exigimos resposta” e, em letras quase invisíveis, a referência a uma homenagem às vítimas da depressão Kristin.
Dou de barato a boa intenção da iniciativa. Mas há aqui uma sobreposição de mensagens que levanta sérias reservas.
Em primeiro lugar, a própria designação. Uma vigília é, por definição, um momento de recolhimento e homenagem. Quando o slogan principal é “Exigimos resposta”, o que está nas entrelinhas é outra coisa: uma manifestação de protesto e pressão. Pode ser legítimo protestar, mas chamar-lhe vigília é, no mínimo, um eufemismo. O mesmo acontece com a “solidariedade pela população sem eletricidade”: o subtexto parece ser um convite generalizado — tenha ou não tenha luz em casa — para aderir ao protesto. E a referência às vítimas, colocada quase como rodapé, soa mais a recurso emocional do que a verdadeiro gesto de memória.
Este enquadramento é problemático por três razões concretas.
A primeira prende-se com a crítica implícita à empresa responsável pela infraestrutura elétrica, como se estivéssemos perante um atraso banal ou uma falha de rotina. Não estamos. A Kristin provocou danos brutais numa rede extensa e complexa. Há equipas a trabalhar dia e noite, em condições difíceis, e sabe-se já que houve trabalhadores que perderam a vida em serviço. Ignorar este esforço coletivo, ou alimentar a ideia de que tudo se resolveria com mais pressão pública, é injusto e perigoso. Como alguém escreveu nas redes sociais, com crueza: não há milagres. A recuperação não é instantânea, e o discurso permanente de ataque só acrescenta desgaste e, potencialmente, mais vítimas.
A segunda razão é o uso maniqueísta da solidariedade. Apelar ao sentimento coletivo enquanto se instrumentaliza o sofrimento de povoações que estão há mais de uma semana sem energia é uma grosseria. A solidariedade nestas alturas deveria traduzir-se em apoio prático, em redes de entreajuda, em presença junto dos mais vulneráveis — não em convocatórias ambíguas que misturam empatia com indignação dirigida.
A terceira, talvez a mais sensível, é o recurso à dor causada pelas mortes associadas direta ou indiretamente à tempestade. Transformar esse luto num elemento retórico, com laivos de chantagem emocional, é simplesmente indecoroso.
Há ainda um pormenor que não é de somenos: a organização do evento cabe à Câmara Municipal de Leiria, em conjunto com as juntas de freguesia. E aqui a questão torna-se política no sentido mais direto. Cabe ao poder local pressionar as entidades competentes, articular respostas, exigir meios e acelerar soluções. Quando é a própria câmara que promove uma iniciativa para que seja a população a fazer essa pressão, algo está desalinhado. Ou esse trabalho institucional não está a produzir resultados — por inoperância ou falta de capacidade — ou, pior, está a ser transferido para os cidadãos o ónus de uma responsabilidade que é, em primeira linha, do executivo municipal.
Nada disto invalida a frustração legítima de quem continua sem eletricidade, nem diminui a gravidade da situação. Mas momentos de crise exigem clareza, seriedade e sentido de responsabilidade. Precisamos de comunicação transparente, de coordenação eficaz entre níveis de poder e de gestos públicos que unam, em vez de confundir ou dividir.
Talvez esta questão sirva, ao menos, para uma reflexão construtiva: homenagens devem ser homenagens, protestos devem ser assumidos como tal, e a solidariedade não pode ser usada como ferramenta de mobilização emocional. Às autarquias pede-se liderança discreta e eficaz; à comunicação social, contenção; aos responsáveis políticos, ação concreta; e a todos nós, respeito por quem sofre e por quem trabalha no limite. É assim — com menos ruído e mais responsabilidade — que se reconstrói depois da tempestade.
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Notas finais:
1. Deixo a publicação do cartaz por entender que, apesar de tudo o que deixo dito, as pessoas podem e devem participar neste tipo de iniciativas
2. O cartaz tem dois dias. Portanto, são 13 dias sem eletricidade.
3. Update, após a “vigília”: gostei de ver que a iniciativa foi um sucesso de participação, sinal de que ainda nos importamos uns com os outros.
