Terra

(Não, não faço parte dos que assistem a concursos televisivos de cantores e cançoes e mais o diabo a sete. Não estou para isso. Acabo por preferir que sejam esses amiúdes espantos a trilharem o caminho do inesperado no meu quotidiano)

Hoje vinha no carro, a caminho do trabalho, quando ouvi pela primeira vez “Terra”. Foi uma dessas gratas surpresas que surgem sem aviso e nos ficam. Houve naquele instante qualquer coisa de profundamente português: uma ligação íntima às raízes do povo, à memória coletiva e à musicalidade que nos atravessa gerações. É um tema que parece nascer do chão que pisamos e, ao mesmo tempo, apontar para um horizonte novo. (Deixo o link em comentário.) E pesquisei em meia dúzia de cliques.

É do mundo

Num panorama musical frequentemente moldado por fórmulas seguras e percursos previsíveis, Edmundo Inácio (só o nome é o conceito de povo em si) afirma-se como um caso raro de autonomia artística (deixei esse print aí em cima, que é a ficha técnica do tema “Quem me dera”, que pode encontrar no youtube).

A singularidade do seu trabalho não nasce apenas de escolhas estéticas ousadas, mas sobretudo de um investimento continuado na própria formação, que lhe deu ferramentas para criar sem dependências nem concessões fáceis.

Essa preparação multidisciplinar — musical e também visual — traduz-se numa linguagem coesa, onde tradição e contemporaneidade dialogam com naturalidade. Não se trata de diferença pela diferença, mas de uma identidade construída com método, estudo e risco consciente. O resultado é uma obra que soa livre porque foi pensada para o ser.

Num tempo em que a indústria tende a uniformizar, a sua posição independente é um gesto cultural relevante. Ao assumir controlo criativo sobre o que compõe, produz e apresenta, demonstra que a independência não é um rótulo, mas uma prática diária sustentada por conhecimento e trabalho.

E é precisamente essa combinação — formação sólida e vontade de experimentar — que o coloca entre os cantautores mais interessantes da música portuguesa atual. A diferença, no seu caso, não é um acaso: é uma escolha cultivada.

Deixo a minha punchline:

O Edmundo faz tudo; só não faz misturas.


Publicado

em

por

Etiquetas: