Há momentos em que o jornalismo, no seu zelo de escrutínio, corre o risco de ferir precisamente aquilo que deveria proteger: o tecido moral de uma comunidade. A recente reportagem sobre as alegadas burlas associadas aos donativos da tempestade Kristin parece-me um desses casos — não pelo direito de investigar, que é inquestionável e essencial, mas pelo efeito colateral profundamente nocivo que dela pode advir.
Num país frequentemente marcado por limitações estruturais, há algo que, em situações de catástrofe, sempre se revelou admirável: a rapidez espontânea da solidariedade. Pessoas comuns, muitas vezes com pouco, mobilizam-se para dar ainda menos do que têm — e, ainda assim, dão. É um impulso quase instintivo, que dispensa autorizações, formulários ou garantias. É, em última análise, uma manifestação de confiança: nas instituições, nos intermediários, mas sobretudo no outro.

Ora, quando essa confiança é abalada de forma pública, mediática e amplificada, o dano não se circunscreve aos eventuais culpados. Espalha-se, como uma mancha, sobre todos os que, de boa-fé, procuram ajudar ou organizar ajuda. A suspeita instala-se. E, com ela, a hesitação.
Da próxima vez que uma tragédia ocorrer — porque ocorrerá —, quantas pessoas irão parar antes de contribuir? Quantas irão perguntar “e se o dinheiro não chega ao destino?” Quantas organizações, por receio de escrutínio mediático simplista ou sensacionalista, optarão por não agir com a mesma celeridade? A consequência não será apenas uma resposta mais lenta; será uma resposta mais fria, mais burocrática, mais desconfiada.
E isso deixa-me particularmente desgostoso. Não apenas pelo impacto prático — que pode custar conforto, dignidade ou até vidas —, mas porque revela uma erosão do melhor que temos enquanto comunidade. A solidariedade não é apenas um gesto; é um vínculo invisível que sustenta a ideia de que não estamos sós, sobretudo quando tudo parece desabar.
É aqui que a responsabilidade do jornalismo se torna particularmente delicada. Denunciar irregularidades é um dever. Mas fazê-lo sem ponderar o contexto, a proporcionalidade e, sobretudo, o impacto social mais amplo, pode transformar uma investigação legítima num fator de desagregação coletiva. Entre o direito a informar e o dever de não destruir, existe uma linha ténue — e, neste caso, parece ter sido ultrapassada.
Não é esta a imagem que tenho dos bons jornalistas. Dos que conheci, aprendi a admirar a capacidade de equilibrar rigor com humanidade, denúncia com consciência, verdade com responsabilidade. Porque a verdade, quando descontextualizada ou explorada sem medida, pode deixar de servir o bem comum.
Talvez tenha havido irregularidades. Talvez até crimes. Se assim for, que sejam investigados e punidos com toda a firmeza. Mas o país não pode pagar, em confiança e solidariedade, um preço tão elevado por isso. Porque, no fim, o que fica não é apenas a suspeita sobre alguns — é a dúvida sobre todos.
E um país que duvida da sua própria capacidade de ajudar é, inevitavelmente, um país mais pobre.