Lisa cores

Houve um tempo em que a Páscoa, para mim, chegava pela mão do padre — e vinha embrulhada em pequenas promessas de felicidade chamadas amêndoas. Não eram sofisticadas, nem particularmente subtis: uma amêndoa de sabor por vezes duvidoso, envolta numa camada generosa de açúcar duro, quase mineral, pintada em tons que oscilavam entre o branco, o azul, o rosa, o verde e o amarelo. As míticas “lisa cores”. Naquele tempo, eram doces. E isso bastava.

Quarenta anos depois, continuo a vê-las a circular, fiéis como poucas tradições, distribuídas como se fossem um sinal inequívoco da presença do Cristo Ressuscitado nas casas. E é aqui que a coisa se complica. Porque já ninguém olha para aquelas amêndoas com os olhos de outrora — ou, pelo menos, custa-me acreditar que sim. Essas amêndoas deixaram de ser doces. São hoje um pequeno kit de seixos coloridos, com potencial mais evidente para munição de fisga do que para consumo humano.

Talvez resida aí a sua utilidade moderna: complemento lúdico para uma prática também ela em vias de extinção — fazer fisgas e ir aos pássaros. Já não se vê uma coisa nem outra. E talvez seja melhor assim, tanto para os pássaros como para os dentes.

Porque convenhamos: não conheço ninguém que coma aquilo por prazer. No máximo, há quem arrisque, talvez movido por nostalgia ou bravura mal calculada, enfrentando o perigo real de estilhaçamento dentário. Nem nutricionistas, nem dentistas — esses aliados improváveis da moderação — olham para as “lisa cores” com entusiasmo. Uns vêem nelas açúcar em estado quase ofensivo; outros consideram-nas um desafio mecânico à integridade da dentição.

Posto isto, deixo um apelo humilde a quem decide estas matérias pascais: modernizemos a tradição. Há amêndoas de chocolate que fazem mal, é certo — mas com outra dignidade. São mais simpáticas ao paladar e, sobretudo, menos hostis à estrutura dentária.

E, se a resistência à mudança for absoluta, então proponho um compromisso: mantenham-se as “lisa cores”, mas complemente-se o kit com uma fisga. Sempre se respeita a tradição… e se dá uso prático ao material.


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