A caminho de Roma

Hoje o dia começou a horas impróprias. Não que não costume fazer a habitual pausa de sono a essa hora, por obrigações fisiológicas que chegam com a idade — essa inevitabilidade insensível. São quatro da madrugada. Sei-o porque o despertador de pulso mo disse, naquele seu jeito peculiar de vibrar que discretamente me acorda todos os santos dias. O meu braço direito já não dispensa essa companhia e já lhe notei momentos de ansiedade só porque o “gadget”, como é usual dizer no linguajar moderno, precisou de se ausentar para — aqui, sim, literalmente — recarregar baterias.

A bagagem já estava preparada de véspera, que neste caso quer dizer poucas horas antes. Foi só tratar da higiene matinal, com a indispensável água fria nos olhos que ardem de sono. É sempre assim: quando acordo sem as horas de descanso a que o corpo me habituou, sinto esse ardor persistente. Para o mitigar, fui-me treinando — à força — a executar as primeiras tarefas do dia com as luzes apagadas e os olhos semicerrados. Não sei bem como, mas faço-o, às vezes com a sensação de que consigo ver através das pálpebras.

Ainda era bem escuro. Pudera. Ela acorda. Não apenas por minha causa, mas também porque o mais velho tinha tido um concerto lá para as terras do bordalo, onde a cerâmica faz vista grossa ao pudor. O miúdo ainda não tinha chegado. Confirmei-o depois da necessária vistoria ao quarto, onde a cama jazia, inatacavelmente, bem composta. O alívio das preocupações — ainda que acessórias — chegou com uma troca de mensagens: “já vamos a caminho; foi o melhor concerto que fiz até hoje”. Rai’s parta. Logo hoje que não pude ir. Já não há idade para diretas.

Entretanto, que aqui passa em segundos, visto-me e deixo-lhe um beijo de despedida. “Diz quando chegares.” É sempre a última frase, dita quase em suspensão, como se nem tivesse a certeza de que chegou a ser proferida. E ponho-me a caminho da capital, que a aplicação de navegação marca a cem minutos de distância.


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