(RE)FLEXÕES

Durante anos, vivi voltado para os outros.

Era esse o meu lugar no mundo: ajudar quem passava a ver melhor a curva, antecipar perigos, devolver imagens rápidas da vida quotidiana. Via rostos cansados ao fim da tarde, crianças atrasadas para a escola, bicicletas silenciosas nas manhãs de inverno e carros apressados que mal reparavam em mim. Nunca precisei de mais. A minha vida resumia-se à dignidade discreta em ser útil sem ser notado.

E veio a Kristin.

Ainda hoje me lembro do primeiro vento forte. As nuvens chegaram pesadas, negras, como se trouxessem dentro delas uma noite inteira. E a noite chegou. E a chuva começou. Devagar. Rapidamente deixou de cair para atacar. O mundo inteiro tremia à minha volta. Os telhados gemiam. As árvores dobravam-se até quase tocar o chão. E eu, preso ao meu poste, tentava resistir.

Até que uma rajada me encontrou de frente.

Foi num instante.

Senti o meu suporte ceder, o eixo torcer-se, e a minha visão abandonar subitamente a estrada. Durante anos observei pessoas; naquela noite fui obrigado a olhar o céu.

Quando a tempestade passou, fiquei assim: inclinado, deslocado, absurdamente torto. Esperei que alguém viesse endireitar-me. Nos primeiros dias, mantive essa esperança com a mesma firmeza com que antes segurava reflexos. Achei que bastaria uma escada, duas mãos humanas e alguns minutos para tudo voltar ao lugar.

Mas ninguém veio.

Com o tempo, percebi uma coisa estranha sobre os homens: habituam-se às feridas visíveis. Primeiro estranham, depois toleram, e por fim deixam de ver.

E eu fiquei.

Senti-me inútil. Um espelho que já não mostra o caminho parece condenado ao esquecimento. Mas os dias começaram lentamente a ensinar-me outra forma de existir.

Passei a observar as nuvens.

Descobri que o céu nunca repete exatamente a mesma cor. Aprendi o peso da chuva antes de ela cair. Vi manhãs azuis nascerem por detrás de massas escuras e pores do sol incendiarem silenciosamente os contornos das nuvens. À noite, as estrelas visitavam-me como antigas amizades.

Pela primeira vez, deixei de refletir apenas o mundo dos outros e comecei a refletir dentro de mim.

Hoje continuo torto. Continuo fora do lugar que me tinham destinado. Mas já não vejo nisso apenas um defeito. Há tempestades que nos desalinhham para sempre. Ainda assim, talvez seja precisamente nesse desalinho que aprendemos a olhar mais alto.

Às vezes, alguém abranda o passo e fica alguns segundos a observar-me. Houve até quem, sendo obrigado a parar à entrada daquela via, me fotografasse. Nessas alturas, sinto que ainda cumpro a minha missão.

Já não ensino a evitar curvas.

Agora recordo, silenciosamente, que sobreviver também é uma forma de beleza.


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