Há dias em que uma pessoa sai de casa convencida de que vai apenas atravessar a cidade e regressar com meia dúzia de tarefas resolvidas. E depois acontece-lhe uma epifania sociológica em plena via pública. Desta vez, sob a forma de um iogurte líquido.
Ela vinha a caminhar calmamente. Sem correria. Sem expressão de quem fugia da repartição de finaças ou tentava apanhar a última carreira para o Padrão. Mala a tiracolo, passo tranquilo, semblante normalíssimo. E, enquanto seguia sabe-se lá para onde, ia bebendo o seu iogurte.

E é isto que me faz confusão. (Estava para deixar escapar que acho estúpido, mas é capaz de haver muita gente desse lado a fazer exactamente o mesmo, exactamente agora.)
Não é o iogurte em si que me confunde. Nada contra lacticínios. Nem contra probióticos, fermentos lácteos ou bifidobactérias activas. O que me intriga é o “em andamento”. A refeição transformada numa espécie de abastecimento técnico, como quem põe combustível sem desligar o motor.
E ainda mais me desconcertante haver um banco de jardim mesmo ao lado, com uma apostura de aparente inutilidade.
Um banco bem bonito, aliás. Daqueles bancos que parecem ter sido colocados pela câmara municipal especificamente para acolher cidadãos que bebem iogurtes. Um banco digno. Disponível. Quase suplicante. Mas não. O banco lá estava, sozinho, abandonado à sua vocação contemplativa, enquanto a senhora prosseguia a sua via láctea.
Talvez o problema seja meu. Talvez eu pertença a uma geração ou a uma espécie que ainda vê alguns actos como pequenos rituais. Comer pede pausa. Nem que seja breve. Sentar dois minutos. Olhar para as árvores. Fingir que se pensa na vida, quando na verdade só se está a tentar perceber por que é que agora as tampa dos iogurtes ficam que nem lapas alapadas à garrafa.
Parece que tudo acontece em simultâneo. Caminha-se e come-se. Trabalha-se e responde-se a mensagens. Descansa-se enquanto se vê uma série, se comenta outra e se consulta a meteorologia para sexta-feira.
Parar tornou-se quase suspeito.
E talvez seja isso que verdadeiramente me impressiona: não o iogurte ambulante, mas a dificuldade moderna em conceder dignidade aos pequenos intervalos. Como se até o simples acto de lanchar tivesse de justificar produtividade.
Ainda assim, reconheço: a senhora talvez estivesse apenas feliz a beber o seu iogurte em movimento, indiferente às minhas diatribes filosófico-existenciais de passeio urbano. E faz ela muito bem.
Mas continuo a achar que aquele banco merecia uma oportunidade.