A ferver em lume brando

Há dias em que uma pessoa apenas quer um café. Apenas um café.

Entrei naquele café com a serenidade de quem transporta dentro de si uma legítima expectativa de tranquilidade. Havia meia dúzia de pessoas, conversas em surdina, chávenas discretamente pousadas nos pires, o murmúrio confortável da normalidade humana. Aquele ruído civilizado que não incomoda ninguém porque pertence ao pacto invisível da convivência.

Depois entrou ela. Em videochamada. Não era aquela modalidade tímida e quase clandestina de quem aproxima o telefone do ouvido e murmura qualquer coisa. Não. Era expansiva, confiante, sonoramente democrática. Daquelas em que toda a gente no raio de cinquenta metros fica automaticamente promovida a participante involuntária da conversa.

De repente, sem o termos pedido, todos nós passámos a saber detalhes da vida de uma desconhecida.

E há qualquer coisa de extraordinário nisto: a naturalidade. A senhora não parecia minimamente perturbada pelo facto de estar a transformar um café inteiro numa espécie de podcast ao vivo. Pelo contrário. Instalou-se naquela chamada com o conforto sereno de quem chega à própria sala de estar.

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A dada altura, porém, aconteceu o inesperado (ou não): entrou outra chamada.

A senhora interrompeu imediatamente a primeira conversa — o que, convenhamos, já revela uma certa complexidade operacional — e iniciou uma segunda chamada. Também em alta voz, evidentemente. Porque, aparentemente, quando se entra neste modo de existência, já não há regresso possível à intimidade acústica.

Terminada a segunda chamada, regressou à primeira.

Tudo isto aconteceu enquanto eu segurava a minha chávena com a dignidade possível de um homem que começava lentamente a ferver por dentro enquanto o café arrefecia.

O mais curioso nem é a falta de noção da senhora. O mais curioso sou eu. Somos nós. Esta geração inteira de pessoas educadas que vai acumulando indignações silenciosas enquanto sorri civilizadamente para evitar conflitos. Confesso que, a certa altura, senti vontade de me levantar e dizer:

“Desculpe… talvez esteja a falar um pouco alto.” Mas hoje uma frase destas exige mais coragem do que atravessar a pé uma savana africana durante a época de reprodução dos hipopótamos.

Nunca sabemos o que acontece depois. A pessoa pode pedir desculpa. Pode ignorar. Pode considerar-se ofendida. Pode gravar-nos e transformar-nos num vídeo viral intitulado:

“Homem intolerante tenta impedir cidadã de comunicar.” Vivemos tempos delicados.

Por isso fiquei quieto. A ferver. Borbulhava em silêncio. Como fazem milhões de pessoas civilizadas todos os dias em cafés, comboios, filas de supermercado e salas de espera espalhadas pelo planeta.

É uma das grandes tragédias discretas do nosso tempo: já quase ninguém corrige ninguém. Vamos apenas acumulando pequenas irritações interiores até nos comportarmos como chaleiras emocionais com pernas.

No fim, fiz aquilo que homens profundamente indignados fazem desde o início dos tempos: terminei o café, paguei calmamente e lancei um olhar carregado daquela esperança ingénua de que a outra pessoa, ao cruzar-se connosco, seja subitamente visitada por uma iluminação moral instantânea.

A senhora viu o olhar, tenho quase a certeza. O que não sei é se percebeu o significado. Talvez tenha pensado: “Que homem estranho.” Talvez tenha percebido tudo. Talvez nada.

Mas gosto de imaginar que, mais tarde, já em casa, por um brevíssimo segundo, lhe tenha ocorrido a hipótese de que talvez o mundo não precise de ouvir todas as suas chamadas.

E eu também aprendi qualquer coisa. Aprendi que a educação moderna é frequentemente isto: pessoas profundamente irritadas a tentarem continuar humanas.


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