Entrei numa loja chinesa para comprar uma ferramenta. Nada de especial. Uma daquelas compras pragmáticas que não inspiram grandes reflexões filosóficas: precisava da ferramenta, a ferramenta existia, e naquela loja custava menos do que noutras. Não digo que fosse a melhor do mercado. Provavelmente não era. Para o que era, servia perfeitamente. E a relação qualidade-preço continuava a fazer todo o sentido.
Chegado à caixa, fui atendido por um funcionário asiático. O rosto sugeria a origem, o sotaque confirmava-a. Ao seu lado estava um brasileiro, igualmente identificado pelo sotaque inconfundível. A conta era simples: 6,90 euros.
Como cidadão empenhado em facilitar a vida e em evitar a acumulação excessiva de moedas na carteira, entreguei uma nota e mais 1,90 euros em moedas para acertar o troco. A operação pareceu concluída com sucesso. Peguei na compra e saí.
Já de costas voltadas, ouvi vozes, as deles, a chamar-me. Não percebi logo. Não por causa dos sotaques deles, mas por causa dos meus ouvidos, que decidem cada vez mais colaborar menos com o mundo exterior. Voltei atrás e perguntei se havia algum problema.
— Não era 6,90 euros? — questionei, convencido de que talvez tivesse cometido algum erro com a minha aritmética. Após uma breve troca de palavras, percebi o que tinha acontecido: eu entregara uma nota de dez euros e não uma de cinco. Tinha, portanto, cinco euros a receber.
Cinco euros.
Não estamos a falar de uma fortuna capaz de alterar o rumo da economia mundial, mas também não é uma quantia que a maioria das pessoas despreze. E, sejamos sinceros, teria sido extremamente fácil deixar-me seguir caminho. Eu não tinha dado conta do erro. Já estava praticamente na rua. Ninguém saberia. Ninguém reclamaria.
Mas chamaram-me. Entregaram-me o dinheiro que era meu.
Agradeci aos dois e saí dali a pensar como, por vezes, construímos opiniões sobre grupos inteiros de pessoas com base em discursos abstratos, debates televisivos ou publicações inflamadas nas redes sociais. Depois acontece-nos um episódio simples, banal até, e somos recordados de uma verdade elementar: o caráter não tem nacionalidade.
Naquele dia, dois imigrantes — ou estrangeiros, se preferirem — podiam ter ganho cinco euros. Em vez disso, escolheram ganhar algo muito mais valioso: o meu respeito.
E talvez seja por isso que continuo a acreditar que a honestidade ainda existe. Não faz manchetes, não se torna viral e raramente recebe aplausos. Limita-se a aparecer discretamente, atrás de um balcão qualquer, sob a forma de cinco euros devolvidos a quem nem sequer sabia que os tinha perdido.