Quando a má educação dá palco (ou os meus cinco cêntimos sobre a trend do momento)

Há dias, a meio de um concerto, uma espectadora achou por bem interromper o artista e pôr-se a cantar. Alguém filmou, o vídeo circulou e, em poucas horas, já meio país o tinha visto. Nada de novo. As redes sociais habituaram-nos a que qualquer episódio, por mais banal, chegue a milhares de pessoas antes do jantar.

O mais curioso veio depois. A senhora passou a ser procurada pelos jornais, sentou-se em sofás de televisão, deu entrevistas. Ganhou um pequeno estatuto de celebridade. Um gesto de pura falta de consideração, por quem estava em palco e por quem tinha pago bilhete para ouvir outra pessoa, acabou por render. Rendeu aquilo que hoje mais se disputa, que é atenção.

É a lógica da economia da atenção, que nasceu nas redes sociais e que os meios de comunicação foram adotando sem grande resistência. O absurdo, o provocador ou o simplesmente deslocado leva quase sempre vantagem sobre o normal. Uma grosseria gera mais partilhas do que uma frase sensata, e um comportamento que noutros tempos valia um olhar de reprovação pode hoje valer um convite para o programa da manhã.

Não tenho saudades de uma sociedade cinzenta e bem-comportada, incapaz de lidar com a irreverência. A irreverência faz falta, questiona convenções e muitas vezes faz-nos rir. Só que irreverência e incivilidade são coisas diferentes, e a liberdade de cada um não transforma em virtude a falta de respeito pelos outros.

Onde isto me incomoda mais é quando entram os meios de comunicação. Percebe-se que um vídeo viral seja notícia, porque as pessoas querem saber o que se passou. Mas noticiar o episódio é uma coisa, fazer da protagonista uma figura mediática é outra. Quando alguém ganha visibilidade precisamente por ter passado das marcas, o palco que lhe damos já não é neutro.

Ninguém precisa de dizer a ninguém “façam como ela”. A recompensa encarrega-se disso. Se uma má-criação dá seguidores, entrevistas e convites, a lição aprende-se depressa: transgredir compensa.

Houve um tempo em que a exposição pública funcionava como castigo. Hoje, com toda a gente a disputar os mesmos segundos de atenção, pode funcionar como rampa de lançamento. O que devia envergonhar passa a ser oportunidade.

Da próxima vez que um episódio destes nos cair no telemóvel (e vai cair), talvez valha a pena pensar duas vezes antes de lhe dar mais palco. Aquilo a que damos atenção acaba, mais cedo ou mais tarde, por ser aquilo que ensinamos a valorizar.


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