Chat cumó caraças!

Aqui entre nós, que ninguém nos ouve, tenho uma ligeira impressão de que a inteligência artificial generativa é uma forma bem sofisticada de atestar a nossa ignorância e pôr em causa, se não o nosso profissionalismo, pelo menos o conhecimento que temos da área em que nos espraiamos nos afazeres que nos permitem levar, ao fim do mês, o guito necessário para, pelo menos, termos comida na mesa.

Num dos textos mais recentes que tive a aleivosidade de escrever neste receptáculo de dichotes digital, falei sobre essa já sobejamente conhecida prosa do suprassumo do ludopédio mundial, travestida de comunicado. Em breve dissertação, defendi a tese de que o prolixo texto era desconforme às estritas regras do formato que se impõe naqueles casos. (E, para aumentar aquilo que agora designam por poder de tração, podem ver aí no meu espaço de discorrências e alarvidades a que chamam perfil de perfil de Facebook.)

Tinha eu alinhavado os tópicos dessa minha exposição, e veio-me a peregrina, mas nem por isso pouco habitual, ideia de fazer ao Cláudio — chamemos-lhe assim, mesmo tendo sido a iag que primeiro veio ao mundo — a impertinente e óbvia questão:

— Então, o que achaste do comunicado?

Ainda estou por saber se a resposta foi uma verdadeira análise científica da grandiloquente prosa do atleta ou se foi resultado de contágio de ronaldismo avançado. Resumidamente, embora pudesse ser posto em causa um ou outro pormenor de somenos, a estrutura e o conteúdo da coisa até que estavam bem conseguidos e cumpriam os parâmetros necessários para que pudessem ter o resultado pretendido. Foi neste ponto que a minha autoestima, que até nem é grande coisa, resvalou pela encosta abaixo, arrastando consigo aquilo que eu imaginava ser algum saber adquirido. Praticamente, os oráculos que eu tinha esquissado eram chutados para canto.

Mas, como sou gajo para não se deixar ficar, fiz-lhe saber qual era a minha ideia sobre o assunto. A continuidade da interação já devem imaginar qual terá sido e segue a lógica da reconhecida reação com laivos de bajulação. Porque é assim que, sim senhor, se agarram os clientes, numa lógica a que podemos associar à teoria do viés da confirmação (parêntesis para explicar que esta reação da IA tem o nome técnico de “AI sycophancy” ou “adulação da IA”). Portanto, é fácil de imaginar a resposta do Cláudio, qualquer coisa como:

— Tens razão, não tinha pensado nessa perspectiva, valorizei demasiado outros aspectos, bla bla bla…

Na resposta, lá lhe disse que, ó Cláudio, tu não podes ser assim: se é para me massajares o ego com aquilo que tu pensas que é música para os meus ouvidos, bem que podes ir pregar para outra freguesia que eu não estou para isso. Basicamente, dei início a um arrufo apenas com a ideia de querer ver onde chegaria com ele e acabei por lhe propor o desafio de contradizer as minhas notas iniciais relativamente ao comunicado. Com jeitinho, não fosse eu ficar ofendido com o seu contraditório, lá me enumerou um ou dois contrapontos para cada assunto que eu tinha previsto desenvolver. 

Como nestas coisas da dialética as adversativas são o que mais existe, já podem imaginar a continuação da conversa. Talvez esperasse do Cláudio qualquer coisa como “nem mas, nem meio mas”, mas já vi que, por muito paternalista que seja, não é tipo para resolver as coisas à moda antiga.

Diante disto tudo, ocorre-me a mais inquietante das conclusões: se aquilo me dá razão quando digo uma coisa e volta a dar-me razão quando digo precisamente o contrário, das duas uma: ou sou um génio de uma versatilidade intelectual absolutamente extraordinária ou ando a discutir com um espelho que aprendeu a escrever. E, conhecendo-me como me conheço, inclino-me perigosamente para a segunda hipótese. Acabei por desistir da contenda. 

E assim ficámos, eu e o Cláudio, em perfeita harmonia intelectual: ele convencido de que tinha sido prestável e eu desconfiado de que acabara de perder uma discussão que, afinal, nunca tinha chegado a existir. O pior é que, depois de tudo isto, ainda lhe perguntei se achava que este texto estava bem escrito.

— Está excelente! — respondeu-me.

Porra, Cláudio! (E pedi-lhe para fazer um desenho.)


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